Com a ajuda dos amigos

Agosto 29, 2012

 

Texto: Ivan Martins (Revista Época)

Percebi outro dia que parte dos casais que eu vi surgir no início dos anos 2000 não existe mais. Várias pessoas que começaram a namorar naquela época, e que nos anos seguintes viriam a casar e ter filhos, não estão mais juntas. Elas se separaram ou estão em processo de separação. Começam inclusive a formar novos pares. Algumas estão com pessoas totalmente novas, outras revisitam relações antigas. Os que estão sozinhos têm o ar de que ainda não se acostumaram à nova situação.

Todos parecem estar bem, mas, ainda assim, um pedaço de mim entristeceu ao constatar as separações.

Acho que a gente simplesmente não gosta que as histórias dos outros acabem. A vida das pessoas de quem a gente gosta deveria ser como um filme que termina, congela e se eterniza no beijo final. Assim ele pode ser repetido a qualquer momento. A gente quer um final feliz eterno porque estava lá quando os amigos se agarraram pela primeira vez, porque soube quando eles transaram no réveillon da praia, porque dançou, bebeu e se emocionou até as lágrimas quando eles se casaram. Naquele dia memorável eles pareciam tão apaixonados, tão jovens e tão bonitos que nada poderia impedir que se amassem para sempre.

Alguém aí põe “Eduardo e Mônica”, por favor?

A imagem da felicidade dos casais amigos é tão preciosa que não pertence apenas a eles. Ela faz parte da nossa vida. Compõe o filme da nossa existência. Está lá junto com a foto engraçada em que nos preparamos para a primeira balada. Faz parte da mesma sequência em que estamos gritando e batendo panelas na passeata. Lembra daquele momento em que todo mundo está bêbado e abraçado na festa da formatura? A gente se amava tanto… Essa é a sensação, essa é a imagem que a gente quer levar para o resto da vida.

Pode tocar “With a little help from my friends”, da abertura de Anos Incríveis.

Nostalgia é um sentimento delicioso, mas ele não deveria dirigir a nossa vida. Assim como a adolescência e os dias de “cabelo ao vento e gente jovem reunida” da faculdade fatalmente acabam, a grande paixão inesquecível da juventude também deixa de existir para muitos de nós. Haverá aqueles que tendo encontrado o amor aos 17 anos crescerão com ele até casar, ter filhos e construir, com base nessa relação afortunada, uma vida intensa e plena. Para outros, não. Para esses será preciso deixar para trás o amor dos 20 anos e descobrir outras formas de amar, outras pessoas, outros tipos de relação. Também nisso há uma espécie de fortuna: a possibilidade de viver outras vidas na mesma vida, a possibilidade de começar de novo quantas vezes for preciso.

A boa notícia é que a vida se renova em todas as formas que a gente decide viver. Muitas vezes literalmente.

No mesmo momento das separações, há pessoas que estão celebrando uniões duradouras com o primeiro filho, depois de terem batido pé por boa parte do mundo. Há outras que tendo procurado o amor com a dedicação e a ansiedade dos caçadores de tesouro, agora parecem sossegadas, e se preparam para por no mundo uma menina que nasce para dizer: encontrei!

No mundo que nós recebemos de nossos pais, e ajudamos a definir com as nossas escolhas todos os dias, parece não existir uma única direção em que as coisas se movem. Certamente não existe uma única maneira de fazer as coisas e um tempo único em que elas aconteçam. Todos os tempos convivem e todos os estilos de vida se tocam. O essencial é que todos eles sejam cercados de carinho, amizade e tolerância.

Não é possível estender a ternura visceral e a solidariedade da adolescência para o resto da vida, mas talvez seja possível organizar um mundo do qual ela não tenha sido varrida. Um mundo em que as pessoas construam suas vidas, da forma que acharem melhor, sob o olhar generoso e cúmplice de quem fez parte dela. Com a ajuda dos amigos e cercado por eles, fica tudo mais fácil.


Os traficantes do amor

Junho 20, 2012

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Na minha mesa de trabalho há uma rosa amarela do dia dos namorados. Entraram aqui um fortão e uma loirinha, vestidos de anjo, e deixaram o presente em nome de uma marca de cerveja. Achei engraçado, mas, assim que eles saíram, bateu certa melancolia. Como é fácil banalizar as coisas que nos comovem. Como é simples transformar em clichê – ou babaquice – os sentimentos terríveis que definem a nossa humanidade.

Olhe em volta: estamos cercados pela palavra amor.

Há um milhão de livros com esse título, dez milhões de músicas com esse refrão, centenas de filmes e um batalhão diário de novelas que trata do assunto. Pela quantidade de produtos amorosos que nos oferecem, é inevitável concluir que consumimos mais amor do que cerveja, chocolate e televisores de tela plana. Talvez um pouco menos que celulares.

Nosso apetite por amor não tem limites. Nossa sede de amor jamais acaba. Somos carentes insaciáveis. Sonhamos com o amor todas as noites. Acordamos encharcados de imagens doloridas. Dentro de nós se agita um mar de memórias que tem como centro as nossas experiências de afeto. Velhas, remotíssimas, e recentes. Elas nos movem de forma inconsciente. Somos filhos, somos irmãos, somos amigos, somos amantes, somos pais e mães. Todos nós. A cola que liga todas essas situações é o amor.

Começamos a receber amor ainda minúsculos, nos braços da mãe, e nunca mais paramos. Ele nos constitui emocionalmente, como os músculos e os ossos nos formam fisicamente. É parte essencial de nós e precisa ser reposto, realimentado, revivido a cada dia, a cada momento, em um processo que, a rigor, nunca tem fim.

Um alienígena que chegasse à Terra iria perceber, em dois minutos, nossa abissal vulnerabilidade. Além de água, alimento, abrigo, precisamos desesperadamente de amor – em várias formas, em qualquer forma na verdade. Somos viciados nele. Erguemos nossa vida em torno dele. Do erotismo violento da adolescência aos sentimentos suaves da velhice, nossa existência é uma longa experiência amorosa – ou uma busca desesperada, e muitas vezes cega, muitas vezes infrutífera, pelo amor.

É por isso que me incomoda a banalização comercial do sentimento. Ela me parece uma covardia, quase uma canalhice. Algo como oferecer luz a um cego. Diante do amor, somos todos ingênuos, frágeis, facilmente enganáveis. É simples nos vender qualquer coisa, nos iludir com qualquer promessa. Estamos, desde crianças, atrás da próxima dose dessa droga – e, às vezes, tenho a sensação de estarmos cercado de traficantes que não entregam a mercadoria. Nem poderiam.

Nossos verdadeiros sentimentos são obscuros e sombrios, quase impossíveis de serem saciados. Eles não cabem nos formatos pré-moldados da indústria do amor. Mas não é disso que a marca de cerveja quer falar no dia dos namorados.

Diante do tamanho das nossas necessidades, e da nossa imensa complexidade, a indústria do amor está fadada a nos desapontar. Ela oferece música para um momento de dor, mas mil músicas são incapazes de nos consolar quando acabamos de ser abandonados. Ela nos dá lindas histórias de amor, mas quem pode com elas quando está coberto por um manto intransponível de medo e tristeza?

O paradoxo do amor público, industrial, feliz, multiplicado nas redes sociais e nas salas de Multiplex, é que as nossas experiências realmente importantes são incomunicáveis e intransferíveis. Apesar do estardalhaço social, estamos sozinhos frente ao amor. Cabe a cada um de nós encontrá-lo, vivê-lo ou perdê-lo intimamente. É inevitável gemer sozinho no escuro, cercado de silêncio. O pessoal da rosa amarela não estará disponível se você precisar deles.


Buracos negros humanos

Maio 5, 2012

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Costumo me lembrar dela de duas maneiras. Em uma, é a mulher intensa, cheia de vida, que a cada dia se apaixonava por uma nova ideia que iria revolucionar a sua vida. Na outra, é uma garota ansiosa, desamparada, sempre correndo atrás de algo que não existia. Nas duas versões é um ser humano fascinante. Em ambas, uma companhia intolerável.

Dias atrás, ao me lembrar dessa pessoa concreta e real, me ocorreu a imagem de um buraco negro – aquele ponto no espaço em que as forças do universo se manifestam de forma extrema e misteriosa.

Em sua sedutora confusão, ela era capaz de atrair as pessoas, roubar a luz que elas emitiam e, de forma inocente e inevitável, esmagá-las. Assim como se imagina que os buracos negros podem levar a outras dimensões, ela também arrastava as pessoas ao seu redor a um território de angústia e perplexidade, aquele em que ela mesma vivia o tempo todo. Era, a despeito da sua doçura essencial, da sua enorme carência, uma personalidade destrutiva, incapaz de obter ou oferecer paz. Um mistério insolúvel para si mesma. Uma alma atormentada. Um buraco negro emocional.

Talvez vocês já tenham se envolvido com gente assim.

É impossível ignorá-las e parece impossível salvá-las de si mesmas. Movidos por nossos melhores sentimentos, ou pelo mero desejo, somos arrastados a um turbilhão que não é o nosso e rapidamente percebemos que é impossível contê-lo ou sobreviver em seu interior. Quando você descobre que o outro é um rio sem margem, o instinto de sobrevivência recomenda fugir. Quem fica tem histórias difíceis para contar.

A convivência com esses extremos ensina algumas coisas, porém. A mais importante delas é a importância essencial da sanidade. Os seres humanos diferem de incontáveis maneiras e suas neuroses se multiplicam na mesma proporção. Mas há, dentro de cada um de nós, uma espécie de termômetro que mede a loucura do outro. Se ela passar do limite aceitável pela tribo, ou por nós mesmos, algo dentro de nós berra e recua. Muitos tivemos essa experiência.

Você está conhecendo a pessoa, gosta do que vê e do que ouve, mas, de repente, ela diz ou faz algo totalmente fora de contexto, incompreensível e, por isso mesmo, assustador. Pode ser uma explosão de violência, uma mudança radical de humor ou uma conversa sem pé nem cabeça, que você tenta seguir e não consegue. O resultado é o mesmo: aparece um nó no estômago e a atração vira pó. Temos vontade de sair correndo.

Mas esses são casos extremos.

Em geral, antes de descobrir o pântano mental do outro já estamos enredados. Aí fica mais difícil perceber e escapar da confusão. Aliás, podemos estar apaixonados pelo tumulto. Achamos aquilo tudo fascinante, atraente, único. Pensamos: que pessoa original achei para mim. Leva tempo para entender que ela talvez seja original demais para o seu próprio bem. Custa se desvencilhar de algo assim.

Por isso eu penso nos buracos negros, em como eles arrastam para si tudo ao redor, como são fundamentalmente incompreensíveis e fascinantes, como representam perigo. Eles lembram as personalidades atormentadas. Assim como os buracos negros, é melhor vê-las de longe, no tempo e no espaço, à distância segura de um telescópio. Talvez assim seja possível decifrá-la. Assim é possível sobreviver ao seu fascínio.


Palavras são inúteis

Março 23, 2012

Texto: Ivan Martins

 A gente cresce acreditando no poder das palavras. Desde criança, nos dizem que, conversando, seremos capazes de acertar qualquer coisa, de resolver qualquer situação. Infelizmente, não é verdade. Quando se trata de relacionamentos, as palavras são inúteis.

Os sentimentos apaixonados que nos ligam a alguém não são criados por palavras. Os desentendimentos que aos poucos ou de súbito nos separam da pessoa não são provocados por palavras. Os sentimentos de perda, dor e morte causados pelas rupturas tampouco são remediados por palavras. As palavras descrevem, celebram, exaltam e lamentam nossas paixões, mas não são responsáveis por elas. Quando se trata de amor, as palavras são inúteis.

Não obstante, nós falamos. Cultivamos a ilusão de que o outro pode ser envolvido, seduzido, convencido pela nossa retórica. Acreditamos, fundalmentalmente, que o nosso desejo pode ser transmitido pela palavra. Por isso, telefonamos, mandamos mensagens, escrevemos longos emails, rabiscamos poemas, fazemos letras de música, marcamos conversas dolorosas e intermináveis que – a rigor – não levam a lugar nenhum.

Quando existe um sentimento comum, as palavras são apenas acessórias. Quando não há sentimento, elas agem como um bisturi: cortam, expõem e dilaceram, mas não criam.

Tenho a impressão de que aquilo que liga dois seres humanos existe além das palavras. Uma magia de natureza física ou psíquica dita que Fulana é atraída por Sicrano ou vice-versa. Isso acontece de forma instantânea, ou pode ser construído lentamente, mas não sobre o alicerce das palavras. As palavras são apenas a aparência do que nos liga. Quando as pessoas conversam, trocam entre si códigos que vão além do que elas dizem. Há os olhos, as mãos, o corpo e a voz, que sinalizam uma espécie de todo invisível. Há um conjunto de sinais nos quais um se expressa e o outro se reconhece – e deseja, ou não deseja. O sentido das palavras nessa troca é secundário. A mensagem profunda sobre quem se é já foi passada antes.

Se isso não nos parece tão claro é porque vivemos num universo revestido de palavras. Temos a sensação de que elas iniciam e finalizam todos os atos, mas não é assim. As palavras são apenas sintomas. Quando as pessoas se conhecem e se apaixonam, conversam da mesma forma como se beijam, com fúria e com encantamento. No final, quando tudo acabou, as palavras doem e escasseiam. Elas são repelidas pelo outro da mesma forma que o toque, igual que o olhar. Temos a impressão de estar encerrando o amor com as palavras, mas elas são apenas as flores do enterro. Quando chegamos a elas, o desejo está morto.

Infelizmente, os ciclos de paixão e rejeição não são simultâneos. Eu ainda estou cheio de palavras doces, mas você não quer mais ouvi-las. Ou eu me dirijo a você com palavras de desejo e prazer, mas elas deixaram de fazer sentido. Se você não sente mais o que eu sinto, não vai entender o que eu digo. Nem será tocada pela magia das minhas palavras, que se tornam inúteis. Quantas das nossas conversas não são trocas de palavras inúteis? Tentamos transpor com elas o abismo da indiferença do outro. Explicamos, sugerimos, argumentamos – inutilmente.

Então, economize palavras. Fique quieto e preste atenção. Escute o que ela não diz. Entenda o que ele nem falou. Os gestos contam coisas, os olhares antecipam. Atitudes valem mais do que declarações de amor – e não podem ser substituídas ou consertadas por palavras.


No dia que vem por aí

Dezembro 28, 2011

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

É difícil não sentir esperança. A vida parece ter sido feita para isso. Em vez de um tempo contínuo e inacabável, dentro do qual a nossa existência teria o ritmo dos bichos, habitamos um tempo fragmentado, dividido, que se encerra e recomeça por ciclos – de uma hora, de um dia, de um ano. Esses períodos definem a nossa existência e ajudam a dar sentido a ela. Eles fomentam a esperança.

Lembro de uma conversa, já antiga, em que alguém me explicava, do fundo de uma grande tristeza, o alento que recebia de cada manhã. “Hoje”, ela me disse, “eu posso ser totalmente diferente do que fui ontem, mudar a minha vida, mudar eu mesma e começar do zero. Cada novo dia me apresenta a possibilidade de ser outra pessoa e deixar a dor para trás.” Essa não é uma definição soberba de estar vivo? Andamos tão presos ao passado que ignoramos a possibilidade de mudança embutida no futuro. Começar de novo é a maior delas – para todos nós.

Houve um tempo, quando criança, em que eu costumava me imaginar um homem feito. Teria 25 ou 30 anos, seria veterinário ou agrônomo, seria casado com uma mulher com cabelos de índia e olhos de jabuticaba e viveria, com ela e três filhos, numa casinha rural rodeada de colinas, com cerca de madeira e chaminé, como as crianças costumam desenhar. Nesse cenário idílico, que nunca se materializou, eu seria feliz, destemido e generoso, como os heróis dos livros. Sobretudo, eu estaria pronto, teria me tornado um adulto perfeito – e os adultos, toda criança sabe, não têm medos ou dúvidas.

Os anos se passaram e, a cada 12 meses, a criança que eu era se confronta com o adulto que eu sou. A conversa nem sempre é tranquila, mas é fundamental que ela aconteça. O cara que eu me tornei deve satisfações à criança que eu fui. Tem de lidar com os sonhos dela e com as ilusões que ela engendrava sobre o futuro. O homem tem de contar para o menino que as coisas não são como ele sonhava, que a gente não faz a vida exatamente como quer, mas que, nem por isso, deixamos de ser dignos e bons. É importante que a criança dentro de nós saiba, também, que nunca estamos realmente prontos, nunca crescemos inteiramente, e que as nossas dores – e essa é a pior parte da conversa – não somem quando ficamos adultos. Seguem conosco, mesmo não sendo parte de nós. São como espinhos na nossa carne, e é preciso arrancá-los. Existe, afinal, a esperança de viver sem eles no ano que vem, na semana que vem, amanhã.

A moça com cabelos de índia e olhos de jabuticaba tomou outras formas ao longo do tempo. Foi loira, teve olhos castanhos, cabelos crespos. Mas, em cada mulher real, havia algo da Eva infantil, primordial, que eu procurava como se fosse uma resposta absoluta. Aí há outra complexidade que o menino não previra. Parece não haver uma mulher na nossa história, mas várias. Parece não haver uma única resposta, uma única possibilidade. Também nesse terreno (o do amor), podemos tentar, recomeçar, sonhar, sofrer – ter alegrias e surpresas, enormes.

Então, eu penso, que venha o Ano Novo.

Que venham os velhos e novos amigos. Que o amor encontre o seu lugar na nossa vida e que saibamos reconhecê-lo, preservá-lo ou deixá-lo morrer, quando for preciso. Que o ano nos traga coragem para fazer coisas novas, coragem também para lidar com as coisas antigas que deixamos de lado. Que neste ano a gente se encontre – uns aos outros e a nós mesmos – de um jeito que produza mudança e transformação. Sem auto-indulgência, sem auto-piedade, sem mi-mi-mi. Que 2012 venha para alegrar a criança que fomos e nos ajudar a ser os adultos que merecemos ser – no novo ano, na próxima semana, no dia que vem por aí.


Presentes invisíveis

Dezembro 21, 2011

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Estamos a quatro dias do Natal, época de embrulhar presentes. Sentar no chão, cercado de caixas e sacolas impessoais das lojas, e transformá-las, sem pressa, em pacotes caprichados e coloridos, cada um deles com a cara de quem vai receber. Eu gosto. Não sei fazer compras, mas embrulhar presentes, (assim como engraxar sapatos, aliás) é algo que eu faço feliz, sem entender direito por quê.

Antes de prosseguir, quero fazer um comentário adicional sobre as compras de Natal. As pessoas reclamam, incansavelmente, sobre o quanto é chata, difícil e despropositada essa maratona natalina. Eu tendo a concordar com elas, mas faço uma ressalva importante: parece que as pessoas que menos gostam de escolher presentes são as que têm mais dificuldade em parar de pensar nelas mesmas. Na hora de fazer compras, somos obrigados a pensar no que o outro gostaria de ganhar, naquilo que ele ou ela deseja, e essa parece ser a parte realmente complicada do processo, para muitos de nós. Somos tão auto-centrados, tão intensamente preocupados conosco, que o exercício de se colocar no lugar dos outros, ainda que por alguma horas, provoca exasperação. Quando vai terminar essa palhaçada de Natal para que eu possa voltar, de novo, a me preocupar somente comigo mesmo?

Feito esse desvio, volto ao essencial, que é simples: o melhor presente de Natal é o sentimento que vem com ele. Tenho de fazer um esforço danado para me lembrar do que eu ganhei no ano passado, mas o carinho e o amor das pessoas que estiveram comigo há 10 e 20 anos continuam inesquecíveis. Assim como as mágoas e as dores que elas deixaram. Objetos desaparecem da memória e da nossa vida, mas as felicidades e os agravos a gente carrega para sempre. Hoje em dia, se eu pudesse, daria a cada uma das pessoas que eu amo uma caixinha repleta apenas com um único sentimento invisível, aquele que eu julgasse mais necessário ao momento da vida delas. Acho que seria mais útil que vestidos, camisas ou sapatos. Melhor até que livros.

Eu já desconfiava, mas ficou evidente no filmeAs canções, do Eduardo Coutinho, que as pessoas, sobretudo as mulheres, precisam desesperadamente aprender a deixar as coisas que não deram certo para trás. O dom do esquecimento seria um presente de Natal extraordinário para pessoas que depois de 10, 20,30 ou 40 anos continuam apaixonadas por alguém que nunca as amou. Quem puder, vá assistir ao documentário do Coutinho. Ele entrevista pessoas comuns e pede que elas cantem a canção da vida delas – e explique o que há por trás da música. Em geral são histórias de amor mal resolvidas, que dominam e resumem existência inteiras. Como diz uma amiga que viu o filme, é impossível não chorar diante de uma coisa tão triste. A capacidade de esquecer e recomeçar, portanto, seria um ótimo presente de Natal para milhões de pessoas.

Outra coisa imaterial que anda em falta é a capacidade de escolher afetivamente. Olhe em volta: há muita gente ciscando incessantemente, e não é coisa de adolescentes e jovens. Pessoas de todas as idades não sabem direito o que fazer com elas mesmas. Não conseguem escolher entre o casamento e a bicicleta. Trincam de ansiedade. As possibilidades são tantas, as pessoas tão tantas, as vontades são tantas… que paralisa. Acho que dentro de alguns anos vamos começar a perceber as consequências dessa epidemia de indecisão, na forma de gente inteiramente solta, (pipas ao vento, como eu ouvi uma vez), cuja vida passou ao largo dos compromissos afetivos. Lá na frente elas não terão onde aportar – e nem saberão como, na verdade. Se, com um presentinho de Natal, essas pessoas pudessem aprender a escolher, tenho certeza de que ficariam mais felizes.

O terceiro e último presente que eu gostaria de distribuir em caixinhas com fitas vermelhas é o altruísmo, a capacidade de pensar nos outros. Isso anda muito em falta, na vida dos casais, inclusive. Viramos um bando de egoístas e crianças mimadas. Cada um para si e dane-se o resto. Eu, eu, eu, eu… As pessoas não querem saber de sacrifícios, pessoais ou coletivos. Não podem ouvir falar de deixar seus desejos de lado, ainda que temporariamente. Todos nós temos direito ao gozo já, orgasmo já, realização plena, total e irrestrita, desde logo. Afinal, ralei para isso, não foi? A ideia de apropriação pessoal e instantânea faz parte da nossa cultura, mas está ficando insuportável. A sociedade e o planeta não aguentam sete bilhões de reizinhos batendo o pé e exigindo ser felizes a cada instante. Dentro das famílias acontece o tempo todo, no interior dos casais. Não dá, né? Sem um pouco de doação essa barca afunda – a da vida privada e a da vida pública. Nada de meias, perfumes e gravatas no Natal. Altruísmo para todos, já!


Com voce é diferente

Dezembro 17, 2011

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Talvez haja homens que sejam os mesmos com todas as mulheres, mas eu duvido. Uma das grandes experiências humanas é perceber – no olhar, na conversa, na cama – que estamos diante de uma pessoa diferente e que tudo mudou. Os velhos hábitos não valem. Os truques de sedução e as fórmulas de reconciliação têm de ser redescobertas. É preciso começar de novo – por isso cada paixão faz de nós pessoas diferentes.

Mas essa não é a percepção geral das mulheres.

Tente explicar à sua nova namorada que você não é exatamente o sujeito que ela olhava de longe e de quem ouviu falar pela rádio peão. Tente dizer a ela que, para o bem ou para o mal, com ela você é outro sujeito: menos atrevido, menos engraçado, menos imprevisível, talvez. Ao mesmo tempo mais romântico, mais leal, sexualmente mais intenso.

Experimente contar a ela que o sexo cinco estrelas (e um Big-Bang) a que ela está se acostumando não existia dois meses atrás, quando você a conheceu. Diga que a máquina sexual em que você se transformou, (cheia de energia, audácia e imaginação), estava guardada num porão há 30 anos, esperando que ela entrasse na sua vida. Conte a ela que você nunca foi um fauno e que agora está surpreso com a temperatura a que água tem chegado.

Ao dizer essas coisas, ao sair do seu casulo de reclusão masculino e admitir que você não é super-homem na ausência dela, talvez você se depare com a incredulidade. “Ah, você diz isso pra todas”, algumas respondem. Pois eu garanto, meninas, que não é assim. Nem todas as mulheres que passam pela vida de um homem ouvem esse tipo de confissão. Quando o sujeito, depois de um tempo de convívio (e de romper várias camadas de intimidade), usa a frase mágica – “Com você é diferente” – acredite nele. Há uma chance enorme de que seja verdade.

O sujeito tem de ser emocionalmente muito burro, quase uma anta, para não se deixar tocar pela diferença. Imagine o cara que transa de um certo jeito com Maria e faz do mesmo jeito com Joana e Tereza. Ele pode ser muito bom de serviço, mas, se entregar sempre a mesma mercadoria, no mesmo pacote, na casa de várias mulheres diferentes, vai deixar várias delas insatisfeitas. E passar por autista. Eu não consigo imaginar algo que precise ser mais à la carte do que sexo.

Claro, cada um de nós, homens e mulheres, repete padrões íntimos. Temos um repertório emocional e físico que tende a reaparecer. Há um estilo e um sotaque na forma de transar, na forma mesma de se relacionar. Isso é parte da nossa personalidade, que vai se definindo com o tempo e com a experiência. Mas essa coreografia sexual não é imutável, algo que se execute independentemente da parceira. Cada transa – ou cada pessoa – tem sua própria música, e o nosso corpo se adapta a ela, se souber escutar. O bom sexo talvez seja o encontro de dois ritmos intimamente compatíveis, ainda que diferentes entre si.

Num mundo como o nosso, em que se transa com muita gente, não é fácil cultivar a afinidade. Hoje é com João, daqui a pouco é com Antônio, dentro de alguns dias, quem sabe, com José. Não dá tempo para descobrir compatibilidades que não sejam instantâneas. Não se consegue avançar além do óbvio, não se passa da arrebentação. Pode ser gostoso, mas tende a ser parecido e superficial. Cada um entra em campo com as fórmulas que trouxe do passado e se protege atrás delas. Primeiras transas revelam muito pouco, no máximo dão pistas. Quem fica sempre na primeira transa não passa da ante-sala dos outros e de si mesmo.

A conversa em que o sujeito admite que nunca teve um sexo tão gostoso só aparece lá na frente. Requer tempo, relaxamento, entrega. O cara (ou a garota) precisa perceber que está diante de algo especial, e tem de ter espaço para contar. Não é tão fácil nos dias que correm. As relações são muito rápidas e as pessoas ficaram duras. Muitas não querem escutar, não querem saber. Uma declaração de amor – ou uma declaração de prazer – põe o outro na sua vida. Para alguns, pode ser uma intimidade intolerável.

Se você não é assim, se você abriu a porta para que o seu namorado entrasse, dê crédito quando ele disser que você é única. Acredite quando ele, com cara de menino, contar que nunca foi tão gostoso, nunca foi tão intenso, nunca foram tantas vezes num mesmo fim de semana. Aceite o fato que, apesar da fama de safado e da óbvia competência que ele exibe, você é especial para ele – embora nem sempre você mesma se sinta muito especial. Uma das vantagens de se viver no século 21, neste pedaço do planeta em que homens e mulheres são relativamente livres, é poder andar por aí e descobrir, depois de muitas tentativas e alguns erros, uma chave que combina melhor com a sua porta – um corpo, uma voz e um desejo que parecem ter sido feitos para você. Quando isso acontecer, avise. Quando ouvir a mensagem, acredite. A felicidade não é permanente, mas existe.