Quem é especialista na sua criança?

Março 21, 2012

Texto: Rosely Sayão

“As crianças estão mais agressivas hoje em dia”, me afirmou com convicção uma jovem mãe. Ela acabara de ter uma reunião com a coordenadora da escola que a filha frequenta justamente por esse motivo: a menina andava agredindo os colegas de classe com regularidade, tanto física quanto verbalmente. A idade? Cinco anos.

Segundo as palavras dessa mãe, ela não sabe como a garota desenvolveu essa estratégia na convivência com os colegas. “Em casa não costumamos ser agressivos uns com os outros e sempre ensinamos as crianças a fazerem o mesmo. E ainda assim ela briga com os irmãos, os primos e os colegas de classe.”

Ah! E a garotinha também não é uma filha que essa mãe possa chamar de obediente ou educada em relação aos pais e a outros adultos.

Essa mãe disse que não sabia o que deveria fazer para ensinar a filha a ser mais obediente e educada. Ela terminou nossa conversa dizendo que iria insistir na estratégia que sempre usara com sua filha: conversar.

Qualquer pessoa que já ouviu pais com atenção sabe que a queixa da indisciplina tem sido bem frequente.

Pais com filhos de todas as idades reclamam de desobediência, de falta de limites, de agressividade exagerada da parte dos seus filhos.

Para começo de conversa, vamos lembrar da estratégia que a mãe de nosso exemplo de hoje usa para educar a filha para a boa convivência: conversar. Essa tem sido uma solução encontrada por muitos pais, não é verdade?

Pois aí temos uma contradição digna de ser refletida: por que, justamente quando a estratégia educativa usada é mais democrática, a agressividade e a desobediência andam tão em alta? Vamos levantar algumas hipóteses.

Conversando o tanto que converso com pais, fui tendo cada vez mais clareza a respeito de como eles se veem no exercício de sua tarefa educativa com os filhos.

E constatei uma questão que considero importante: muitos pais, hoje, duvidam de sua própria capacidade de educar os filhos para uma boa convivência.

A fala que eu mais costumo ouvir em conversas desse tipo foi dita pela mãe de nosso exemplo de hoje: “Eu não sei o que fazer”.

E é por causa dessa impotência que muitos pais buscam fora do contexto familiar e da relação com a criança soluções quase mágicas para resolver aquilo que consideram um problema.

Diversos especialistas têm sido convocados a tratar de “crianças agressivas”. A internet tem sido muito usada, também, na busca de orientações ou conselhos.

Aliás, recebi dias atrás uma mensagem de uma mãe que, nessa pesquisa na internet, encontrou um texto meu. Disse ela: “Gostei de seu texto, mas eu preciso de orientações mais claras sobre como fazer e você não escreveu nada disso”.

A esses pais, vou repetir duas frases que vi em uma peça promocional feita por e dirigida a mães. A primeira: “Você é a especialista em seu filho”. A segunda, uma advertência bem-humorada, eu adorei: “O Google não tem filhos”. Ambas sintetizam a ideia de que os pais devem se sentir potentes para buscar e encontrar melhores soluções para dificuldades que enfrentam na educação dos filhos.

Outro fator que não podemos ignorar é o quanto as crianças estão expostas aos meios de comunicação.

Programas infantis -dos chamados educativos aos considerados violentos- mostram conflitos de todos os tipos e tratados com agressividade longamente. Já a solução do conflito ganha bem menos tempo, não é verdade?

E o que dizer dos programas para adultos aos quais os pequenos assistem? Isso só ensina a criança a refinar o uso de sua agressividade.

Precisamos de mais pais que não duvidem de seu potencial educativo nas situações difíceis e de mais civilidade na convivência adulta, já que esta serve de padrão aos mais novos.


Bullying não é nada disso

Novembro 16, 2011

Texto: Rosely Sayão

Há muita gente que não aguenta mais ouvir falar de bullying. O assunto é tema de reportagens nos jornais diários de todos os tipos, nas revistas semanais, nas prateleiras das livrarias, nas bancas de revistas, na internet etc. Já conseguimos esvaziar o sentido dessa palavra e seu conceito de tanto que a usamos e de tanto fazer associações indevidas com o termo. Basta um pequeno drama ou uma grande tragédia acontecer, envolvendo jovens, que não demora a aparecer a palavra mágica. Agora, ela serve para quase tudo. Além de banalizar o conceito, o que mais conseguimos com o abuso que temos feito dele? Alarmar os pais com filhos de todas as idades. Agora, a preocupação número um deles é evitar que o filho sofra o tal bullying.
O filho de quatro anos chega em casa com marca de mordida de um colega? Os pais já pensam em bullying. A filha reclama de uma colega dizendo que sempre tem de ceder seu brinquedo, ou o filho diz que tem medo de apanhar de um colega de classe? Os pais pensam a mesma coisa.
Alguns deram, por exemplo, de reclamar que a escola que o filho frequenta tem, no mesmo espaço, estudantes de todas as idades e dos vários ciclos escolares. Então agora vamos passar a considerar perniciosa a convivência entre os mais jovens porque há diferença de idade entre eles? Decididamente, isso não é uma boa coisa. As crianças e os jovens aprendem muito, muito mesmo, com o convívio com seus pares mais novos e mais velhos. Ter acesso a alguns segredos da vida adulta pelas palavras de outra criança ou de um adolescente, por exemplo, é muito mais sadio e interessante do que por um adulto. Um exemplo? A sexualidade.
Outro dia ouvi um diálogo maravilhoso entre uma criança de uns dez anos e um adolescente de quase 16. O assunto era namoro. Em um grupo, os mais velhos comentavam suas façanhas beijoqueiras com garotas. A criança “pelo que entendi, ele era irmão de um dos mais velhos” passou a participar da conversa querendo saber detalhes do que ele chamou de beijo de língua e ameaçou começar a também contar suas vantagens.
Logo a turma adolescente reagiu, e um deles falou que ele era muito criança para entrar no assunto. E um outro disse, sem mais nem menos: “Agora você está na idade de ouvir essas coisas e não de fazer, está entendido?”. O menor calou-se e ficou prestando a maior atenção à conversa dos maiores, sem intervir.
Imaginei a cena se tivesse acontecido com o garoto de dez anos e adultos. Não seria nada difícil que eles dessem atenção ao menino, que quisessem saber e fornecer detalhes a respeito das intimidades que podem acontecer num encontro entre duas pessoas. Muito melhor assim do jeito que foi, não é verdade? Com a maior simplicidade, o garoto foi colocado em seu lugar de criança e nem se importou com isso, mas, mesmo assim, pôde participar como observador da conversa dos mais velhos.
Conflitos, pequenas brigas, disputas constantes acontecem entre crianças e jovens? Claro. Sempre aconteceram e sempre acontecerão. Mas esses fatos, na proporção em que costumam acontecer, não podem ser nomeados como bullying. Fazer isso é banalizar o tema, que é sério. Aliás, isso tudo acontece sem ultrapassar os limites das relações civilizadas se há adultos por perto. Essa é nossa questão de sempre, por falar nisso.
O verdadeiro bullying só acontece em situações em que os mais novos se encontram por conta própria, sem a companhia e a tutela de adultos, sem ainda ter condições para tal.


Brincando de terapeuta

Outubro 19, 2011

Texto: Rosely Sayão

A criançada está com a saúde mental comprometida, apresentando muitos sintomas, doente. Essa é a conclusão a que chegamos quando tomamos conhecimento da quantidade de crianças e jovens que têm indicação para fazer ou já fazem ludoterapia, psicanálise para criança ou adolescentes e outros tratamentos derivados.
Uma criança de três anos, por exemplo, que apresentou um comportamento considerado diferente ou de difícil trato, o que colocou pais e professores em apuros, já mereceu a indicação para um atendimento psicanalítico.
Outra, um garoto de dez anos, já tem em seu currículo de vida a passagem por três -três!- tratamentos psicanalíticos. O motivo? É uma criança que passou a apresentar dificuldades escolares.
E a menina de oito anos que apresentou o que seus pais chamaram de “erotismo precoce”. Já está em atendimento há mais de um ano. Será que é para tanto?
Recentemente, conversei com uma psicanalista a respeito dessa epidemia de indicação e de tratamentos psicanalíticos (ou chamados de) para crianças. Ela me deu ideias bem interessantes a respeito do assunto. Primeiramente, disse que muitos tratamentos chamados psicanalíticos não o são de fato, porque nem sempre estão fundamentados no aparato teórico psicanalítico, por sinal bem complexo.
Ainda mais hoje, com tantas mudanças já ocorridas no mundo após a publicação dos principais textos que inauguraram a psicanálise. Vamos reconhecer esse fato como verdadeiro. Agora, há até curso de psicanálise pela internet e qualquer pessoa pode se denominar “psicanalista de criança”. Isso na melhor das hipóteses, porque você, leitor, já deve ter visto pela cidade placas em consultórios indicando “psicanálise infantil”. O que será isso?!
Bem, mas a melhor consideração que ela fez, em minha opinião, foi a de que hoje, mais do que nunca, os adultos responsáveis pela formação dos mais novos -em geral os pais- usam as crianças para satisfazer seus próprios desejos. Ou seja: os adultos projetam sobre as crianças que estão sob sua responsabilidade sua busca infantil de prazer imediato.
Um exemplo? Basta observar com atenção pais e seus filhos nos shoppings das cidades se dedicando à compra de brinquedos. Quem sente mais prazer com a compra desses objetos? As crianças -que, na sua imaturidade característica, se submetem sem saber aos apelos do consumismo- ou os pais, que dedicam uma parte polpuda de seu salário para essas aquisições?
Você terá surpresas interessantes, caro leitor, se observar a expressão facial deles nesses momentos. Em resumo: quem deveria, de fato, marcar presença semanal nos consultórios de psicanálise são os adultos. A maioria das crianças que frequentam duas, três ou mais vezes semanais o consultório está lá indevidamente.
Algumas delas precisam desse tratamento? Certamente. Muitas não terão nenhum benefício com isso? De fato, não sabemos. Mas sabemos que um tratamento psicanalítico não deveria ser banalizado dessa maneira.
E sabemos também que muitas das crianças que são tratadas pela psicanálise -ou terapias ditas psicanalíticas- apenas pagam o preço de nossos desvios, de nossa infantilidade, de nossa imaturidade. Ora, deveríamos, então, honrar as nossas próprias contas.


Família feliz e família real

Setembro 27, 2011

Texto: Rosely Sayão

Um grupo de amigas, todas mães de crianças com menos de seis anos, pediu para conversar comigo a fim de trocar ideias a respeito da educação dos filhos e da vida familiar.
Ouvindo atentamente essas mulheres -todas profissionais liberais com vida bastante atribulada e, mesmo assim, muito compromissadas com sua função de mães-, posso afirmar que três reclamações centrais foram colocadas no diálogo.
A primeira delas, unânime, foi em relação à participação ainda pequena dos maridos no trabalho doméstico e na lida com os filhos. É preciso dizer que elas reclamaram sobre isso com um pouco de culpa e constrangimento -já que reconheciam a boa vontade de seus companheiros de vida. Uma delas, inclusive, chegou a dizer que não sabia se tinha o direito de manifestar o anseio de ter mais colaboração do companheiro por saber que, na comparação com a maioria dos homens, o marido fazia bem mais do que muitos outros.
Pois é: em pleno século 21, com as mudanças radicais que aconteceram e ainda acontecem nos papéis do homem e da mulher, tanto na sociedade quanto na vida privada, nós ainda não conseguimos alcançar a equidade de direitos e deveres. Principalmente quando se trata da vida em família. Ainda é marcante a herança do antigo modelo no qual ao homem cabia, principalmente, o papel de provedor material do grupo, e à mulher, o de provedora afetiva da família e administradora da casa e da educação dos filhos.
Essa herança é marcante o suficiente para nos fazer usar a expressão “muitas mulheres trabalham fora” (de casa, naturalmente). Isso aponta uma referência: a de que o lugar da mulher seria dentro (de casa, naturalmente).
A segunda reclamação do grupo foi a respeito da necessidade de repetir a mesma coisa para os filhos dia após dia, sem trégua. “Quando isso vai acabar, se é que vai?”, perguntou uma delas, com muito bom humor. Essas mulheres têm sentido na pele que criar filhos, principalmente nos primeiros anos de vida deles, exige um trabalho árduo e, muitas vezes, braçal. É birra, é mordida, é teimosia, é choro. E são noites sem dormir e muito mais, não é verdade? E, como costumo dizer, isso só acaba na maturidade dos filhos. Repetir o mesmo conceito, mudando apenas a forma dele, é algo que só termina mesmo quando os filhos se tornam adultos. Ah! E como isso tem demorado no mundo contemporâneo…
A última queixa delas, mas não em ordem de importância, foi a de que ter família exige muito de seus integrantes. Alguém discorda?
Todos sabemos o quanto é trabalhoso fazer a manutenção do grupo familiar. Atender às necessidades básicas de todos, principalmente dos filhos, não é o mais difícil. Complexo é administrar os conflitos que surgem na convivência e também aqueles que existem, mas não são expressos e, mesmo assim, interferem no relacionamento dos integrantes da família.
Ouvindo tudo o que essas mulheres disseram, me lembrei de um fenômeno recente em nossas vida nas cidades grandes: esses decalques de “família feliz” que agora lotam as traseiras dos carros. O que eles querem expressar, afinal? Talvez um apelo: o de que a família seja mais valorizada, por exemplo. Ou, talvez, uma crítica ao nosso modo de vida atual, em que a família é apenas uma boa justificativa para nossas escolhas. Mas no fundo, bem no fundo, esses adesivos podem estar tentando dizer que essa “família feliz” é a dos nossos sonhos, em nada parecida com a família real que, como acabamos de ver, é complexa até demais.
O problema é que esse sonho parece estar impedindo o enfrentamento da realidade: ter família é bom, mas dá um trabalho danado. Parece que gostaríamos de ficar apenas com a primeira parte dessa afirmação.


Criança não sabe brincar

Setembro 20, 2011

Texto: Rosely Sayão

O que é mais importante para as crianças: o ato de brincar ou o brinquedo em si? Num mundo que privilegia o consumo, a resposta imediata poderia ser a de que elas querem brincar, mas, para isso, dependem dos brinquedos.
Pode ser verdade: a todo momento elas pedem brinquedos. Têm montes deles e, mesmo assim, querem mais, mais, sempre mais.
E nós, de bom grado, sempre que possível oferecemos a elas esses mimos. Ah! Como é gostoso ver a cara de felicidade do filho, sobrinho ou neto quando ganha aquele brinquedo que tanto queria.
Brinquedo esse, aliás, que de forma direta e indireta se insinua na vida dos pequenos de todos os modos.
Ora porque, por ser a sensação do momento, todo mundo tem e fala sobre ele, ora porque foi visto na vitrine de um shopping e a criança passa a imaginar que a vida sem aquilo não tem a menor graça.
Mas vamos observar uma criança que já tem muitos brinquedos no momento em que ganha mais um, justamente o desejado do momento. Assim que abre o pacote, é só alegria. Quanto dura a experimentação do brinquedo, a descoberta do que ele pode oferecer, o foco só nele?
Quem já se deu ao trabalho de observar, sabe: o intervalo de tempo entre ganhar o brinquedo e abandoná-lo para fazer outra coisa é pequeno. Muito pequeno. Nada proporcional ao tamanho do desejo de possuí-lo manifestado antes. Alguém discorda?
Considerando isso, voltemos à pergunta inaugural de nossa conversa de hoje.
Talvez a resposta agora possa ser outra, bem diferente: a criança dá valor mais ao brinquedo do que à brincadeira porque não sabe brincar. Criança não sabe brincar?!?
Veja o que me contaram duas mães cujos filhos têm quatro e seis anos. O primeiro, um menino, foi transferido de uma escola de educação infantil em que o aluno só brincava na hora do recreio (à semelhança do ensino fundamental) para uma em que o aluno brinca o tempo todo. Os recursos usados nessa escola para o brincar são diversos, inclusive a sucata doméstica, que os pais levam para a escola toda a semana.
Dois meses depois de o garoto ser transferido, um drama passou a ocorrer: ele tem crises de choro sempre que a mãe leva sucata para a escola. Ele quer ficar com o lixo, a mãe não entende o porquê. A resposta é simples: ele aprendeu a brincar com esse material. Agora, valoriza mais o brincar do que os brinquedos.
A história da outra mãe é semelhante: matriculou a filha de seis anos em um ateliê que coloca as crianças para trabalhar com sucata de todos os tipos. Resultado: agora, em casa, a menina ignora os brinquedos e recolhe a sucata da família para brincar.
Aí está: as crianças do século 21 valorizam mais o brinquedo do que a brincadeira por dois motivos principais. Conhecemos o primeiro deles, mas nem sempre damos a devida importância: as crianças de hoje são as crianças do consumo. Elas consomem os brinquedos, apenas isso.
O segundo motivo também não costumamos valorizar: o fato de a criança não saber brincar por não ter oportunidade para isso. Roubamos das crianças sua infância e, sem infância, como brincar? Elas costumam ter o tempo todo tomado por
compromissos, programas de lazer, são pressionadas o tempo todo pelos pais.

Vamos reconhecer: sem tempo livre para nada fazer e com o direcionamento direto de adultos, as crianças nunca aprenderão a brincar. É essa a vida que desejamos para elas?



A imposição das escolhas

Agosto 13, 2011

Texto: Rosely Sayão (Psicóloga colunista Folha Equilíbrio)

Você tem filhos com menos de seis anos, leitor? Que tal garantir a eles a oportunidade de viver como crianças pequenas que de fato são? Um bom começo é deixar de dar tanta importância à preparação delas para um futuro exitoso. Pois é: hoje, as crianças perdem esse período precioso da vida, e tão breve, porque decidimos que, quanto mais cedo elas forem introduzidas ao manuseio das ferramentas do mundo adulto, maiores serão suas chances quando tornarem-se adultas.
Essa postura, cheia de boas intenções, é um componente importante no processo em curso que  romove o desaparecimento da infância no mundo contemporâneo. E você sabe leitor, o que significa ser criança sem ter a chance de viver a infância? Não. Ninguém sabe ao certo como é a vida das crianças neste mundo. Entretanto, temos algumas pistas a esse respeito. Ansiedade, insônia, depressão, inquietação constante, medo, hipertensão, obesidade, doenças do aparelho digestivo etc., males que antes eram exclusividade do mundo adulto, hoje são frequentes na infância, inclusive na primeira parte dela.
Pressa, pressão, compromissos, deveres. Nada disso combina com os primeiros anos de vida. O que combina? Tempo, material e oportunidade para brincar, por exemplo. Ou para nada fazer: só olhar, observar, participar da vida de um modo muito particular.
Crianças dessa idade podem aprender informática, línguas, esportes, letras e números? Podem. Precisam disso? Não precisam. Pelo menos não do modo como temos feito. Criança com até seis anos aprendem brincando. Mas ela não deve brincar para aprender determinado conteúdo e sim aprender algo, por acaso, brincando apenas. Simples assim.
Outro caminho para deixar a criança viver a infância a que tem o direito é não passar a ela as responsabilidades que são nossas. Não se espante, leitor: fazemos isso diariamente. Escolher a roupa que vai vestir, o brinquedo que quer ganhar, o calçado que quer usar, o horário em que vai se recolher para descansar, qual escola vai frequentar, se vai atender a imposição familiar ou se vai desobedecer… Quantas escolhas permitimos que elas façam e que deveriam ser só nossas! Vamos convir: escolher algo é um processo complexo até para um adulto, não é verdade? Quem não pena para escolher se muda de emprego ou não, se casa ou permanece solteiro, se rompe um relacionamento amoroso desgastado ou deixa a coisa rolar, se usa esta ou aquela roupa em uma ocasião especial, entre outras situações? Pois essas escolhas, que são tão importantes na vida de um adulto, porque interferem no eixo vital deles, são similares às escolhas que obrigamos as crianças pequenas a fazer. Sim: obrigamos.
Elas querem, elas pedem por tudo isso e atendemos – é assim que preferimos pensar.
Elas até podem querer, mas nós é que devemos saber o que faz bem a elas ou o que fará com que padeçam. Por não suportarmos o sofrimento que a criança experimenta quando é desagradada, temos feito com que sofram muito mais.

Se você conseguir poupar seus filhos menores de seis anos do processo de fazer escolhas complexas e permitir que eles passem esses primeiros anos de vida apenas brincando sem qualquer outro objetivo que não o de se divertir, dará a eles uma vida presente muito rica. E essa é a melhor maneira de preparar um futuro melhor.


Cuidado ao falar

Abril 11, 2011

Texto: Rosely Sayão

“Os ouvidos não têm pálpebras, por isso não podemos nos proteger dos barulhos que não queremos ouvir.” Essa frase, dita por uma professora de música em uma reunião de pais, me fez pensar muito na vida das crianças na atualidade.

Você já observou uma delas assistindo a um filme? Quando surge uma cena que ela não quer ver, fecha os olhos. Até adultos fazem isso. As pálpebras são uma espécie de proteção do sentido da visão: acionadas intencionalmente, nos protegem de visões que nos causam asco, medo ou repulsa, por exemplo. Desde cedo, a criança aprende a usar esse recurso.

Já do que se fala em seu entorno as crianças não podem se proteger. Hoje, os adultos não têm tomado muito cuidado quando conversam entre si perto de crianças e isso acontece por vários motivos. Um dos principais é que a presença da criança no mundo adulto foi quase naturalizada. De modo geral, não consideramos mais nocivo que ela participe de acontecimentos próprios da vida adulta. Para não sonegar informações que ela solicita ou que acreditamos que ela deva ter, lhe dizemos quase tudo.

O segundo motivo é que nós, adultos, estamos muito centrados em nossas próprias vidas.Quando queremos desabafar, tecer comentários diversos, contar segredos, tecer julgamentos de pessoas próximas ou com as quais mantemos relações impessoais, fazemos isso sem antes observar se há crianças por perto que estariam expostas ao que dizemos.

E, além de a criança absorver tudo sem ter maturidade suficiente para dar um sentido apropriado ao que ouve, ela fica sempre pronta a expressar o que ouviu, a qualquer hora e na frente de qualquer um, já que não é capaz de guardar segredos -o que coloca seus pais em situações constrangedoras.

Uma mãe me contou que, ao entrar no elevador com a filha de cinco anos, encontrou-se com uma vizinha. De pronto, a menina disse em alto e bom som: “Mãe, é dessa mulher que você não gosta?” Nem é preciso dizer o clima que se instalou entre as duas, que convivem no mesmo prédio.

Em uma escola de educação infantil, a professora acabara de contar uma história que falava em pesadelos e sonhos. Uma criança disse que a mãe sempre tinha pesadelos porque gemia à noite e, na sequência, outras crianças comentaram o mesmo a respeito dos pais.

Nossa preocupação deve ser com o que a criança ouve e passa a fazer parte de sua formação ou deformação, em alguns casos moral, tanto quanto com aquilo a que ela dá um sentido que interfere radicalmente em sua vida psíquica e emocional. Um garoto de nove anos entrou em estado de apatia porque ouviu seus pais tratarem de sua transferência de escola. A mãe disse que talvez fosse melhor uma escola mais fácil porque ele não era tão inteligente quanto o irmão mais velho.

Já que não conseguimos controlar tudo o que a criança ouve, podemos ao menos poupá-la dos ruídos indesejáveis a ela. Para tanto, precisamos ser mais cuidadosos na presença dos mais novos.