Amor em gerúndio

Junho 1, 2017

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Texto: Diana Corso – Revista Vida Simples

Lembro de suas mãos de ruivo, muito brancas, sarapintadas de sardas. É um detalhe, mas para mim marca do começo. Erguendo os olhos delas, um cabeludo silencioso, barbudo, cujo olhar parecia não perder nada. Ele era amigo dos amigos com quem eu morava. Tínhamos uns 20 anos. Foi um início tão simples que não tenho muito claro como começamos a conversar. Fora das mãos, que lembro com precisão, o resto é um território de cenas esfiapadas. Foi a essas cenas que recorri quando nossas filhas começaram a perguntar como foi que nos conhecemos. A história das mãos é vaga para contar a uma criança, nem sei se a mencionei. Falei de uma carona de caminhão para a praia, de reuniões em que nos víamos, da sua frequentação à casa, que foi transformando-se em visitas para mim. A pergunta acabou virando motivo de piada, elas gostavam de repeti-la em separado para ambos, para ver-nos atrapalhados, desfiando a cada vez uma história diferente, na tentativa de explicar o inexplicável: como começa um amor, como duas pessoas se escolhem. Elas diziam que inventávamos, afinal ter tantas versões para um fato era sinal de que era tudo mentira. O problema é que uma escolha amorosa não é um fato, é um processo, e acabaram entendendo isso mais tarde, quando lhes tocou amar. Preferimos um começo de cenas inesquecíveis de paixão arrebatadora, só depois
elas cederiam espaço a uma percepção mais realista denominada amor. Esse é o protótipo, embora talvez seja mais comum que o amor vá chegando sorrateiro e se instalando feito um posseiro no coração. O amor acontece em gerúndio. As crianças querem saber como seus pais se conheceram porque devem sua concepção a esse acaso. Seria um alívio pensar que há um destino tramando para que esses amantes fossem conduzidos um para o outro. Que uma vez tendo-se visto, os pais tenham ficado hipnotizados um pelo outro. Algo deveria garantir que elas estavam fadadas a nascer, pois aquelas criaturas não deixariam de encontrar-se e perceber que se amavam. Odiamos ser fruto de um acaso, do imponderável. Já nós, adultos, temos tanta fé na paixão para não admitir quantas oportunidades de amar perdemos enquanto ficamos esperando ser fulminados pela flechada de cupido. No amor costumamos fazer quase tudo errado, por isso ele deve sua existência menos ao encontro inevitável, mais à persistência do interesse. Quando vou a uma loja e interesso-me por comprar algo, mas fico em dúvida, os vendedores dizem que é o último e se vacilar vou perdê-lo. Respondo que preciso de tempo, se for para ser meu, vai me esperar, se não, é porque não era para ser. No amor, se pudermos ir percebendo-o aos poucos, vacilando até, se for para ser nosso, ele terá tempo de nos esperar.
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Sem migalhas

Maio 29, 2017

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Texto: Ronaldo Lemos – Revista Trip

Tem uma palavra que está ficando cada vez mais na moda: o breadcrumbing. Seu significado literal é atirar migalhas de pão (bread-crumbs), no melhor estilo João e Maria, para fazer alguém ir atrás de você. No sentido figurado, a palavra surgiu para descrever a detestável prática de nos relacionamentos amorosos ficar dando sinais de interesse na outra pessoa, sem ter intenções de seguir em frente com a relação.

O breadcrumbing tornou-se uma praga dos tempos modernos. Seus praticantes ficam mandando mensagens privadas em redes sociais, dando “likes” e mandando coraçõezinhos em tudo que você posta, mantendo acesa a possibilidade de um encontro ou talvez de algo maior. Essas migalhas são atiradas para indicar algo como “oi, estou aqui, estou pensando em você, você é importante para mim”.


Para descongelar o outro

Maio 25, 2017

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Texto: Gustavo Gitti

A maneira como nos relacionamos diz muito sobre quem somos.

Começamos olhando para aquele nosso amigo tímido. A timidez parece existir lá fora, como parte de sua identidade, certo? Ainda assim, há pelo menos uma outra pessoa que não vê timidez alguma ali e no mínimo um ambiente no qual ela não aparece. Agora expandimos tal contemplação para todas as qualidades que atribuímos aos outros. Alguma característica pode ser apontada como permanente? É verdade que alguns condicionamentos persistem mais, como em alguém que fuma há 30 anos, mas ele não é fumante por natureza: antes não fumava e pode cortar o vício.

Não faz sentido falar em pessoas falsas, malignas, burras, vingativas. Tais negatividades não pertencem a elas, não estão incrustadas na pessoa, não estão entranhadas no âmago. São qualidades relacionais que se manifestam de acordo com a posição em que elas estão na sociedade, na empresa, na família, entre amigos.

Quem aponta “Ele é chato” revela o tipo de relação que foi “co-construída”, o modo como nasceram um ao outro. Não há chatice em ninguém ali. Portanto, se você reclama que vive cercado de pessoas superficiais, isso não diz nada sobre elas, mas diz muito sobre como você se relaciona.
Do mesmo modo, tudo aquilo que você pensa ser, sua “essência”, são apenas formas de relação que estabeleceu consigo diante do espelho e com as pessoas, objetos, locais, com o mundo em geral. Bastaria cortarem todos os meus vínculos atuais, inclusive com o apartamento onde moro, para eu começar a esmolar ou até mesmo roubar para conseguir comida, eu mudaria 100%. O problema é que esquecemos essa mobilidade e congelamos as pessoas como se elas fossem algo independente do contexto e do nosso olhar construtor.

Se não perdemos de vista essa natureza livre de atributos, aquele problema que parecia vir do outro agora se mostra como uma possibilidade (restrita) de conexão. E então naturalmente damos espaço a outros posicionamentos, olhares, gestos. O outro muda quando mudamos a relação.
Para andar num mundo de pessoas abertas e generosas, começo me abrindo. Oferecer o meu melhor é já ativar o melhor dos outros. Por outro lado, se enxergo manifestações transitórias como essências imutáveis, se não considero um criminoso como um potencial parceiro, isso é sinal de que estreitei minha visão, exatamente como aconteceu com o criminoso.

É inútil imaginar um mundo melhor e discursar sobre transformação social se continuamos congelando as pessoas ao nosso lado.


Sabe mãe…

Maio 22, 2017

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Texto: Fabíola Simões

Sabe mãe, carrego alguma nostalgia da época em que suas mãos eram lisas e uniformes. Mas é no hoje, porém, que aprendi a respeitar o significado do desenho das veias que saltam através do tecido fino, e das manchas salpicadas como gotas de tinta decorando a fina estampa de sua superfície. Trazem mais história que ambição, exemplo de uma vida de coragem e superação. Observo seu rosto mas a sinto em suas mãos. Sei que carregam o tempo e a vivência, o que deixou pra trás e o que tem guardado dentro de si. E admiro os sulcos que traduzem o amadurecimento e o olhar reciclado perante a vida; a sabedoria de entender-se completa, ainda que lhe faltem pedaços. Talvez os sulcos sejam mais que deficiências cutâneas provocadas pelos raios de sol. Talvez sejam faltas que lhe acompanham e hoje fazem parte daquilo que se tomou. Sinais de uma vida repleta de presença e ausência, orfandade e resiliência, alturas e tombos. Sei de seus voos, mãe, mas também acompanhei sua perda de altitude. Você, que sempre esteve no comando, teve que aprender a ser conduzida também. E isso lhe tornou uma pessoa melhor. Com mais marcas, mas melhor. É por isso que admiro tanto suas mãos, mãe. Porque me mostram que você não é de ferro. Você é de verdade, assim como eu e meus irmãos. E descobri-la mais humana tem me ajudado a entender a vida também. Porque assim é mais fácil compreender que todos nós _ até você_ carregamos dúvidas, incertezas, desilusões. Mas tudo isso é superável também. Apesar dos cabelos brancos e das pintinhas coloridas, estamos diariamente tentando resistir. E você é dura na queda, mãe. Você é porreta. De uma fé e certeza tão grandes que a gente duvida se é feita do mesmo tecido. Mas então eu tenho as suas mãos. E elas dizem que sim, que você também enfrenta desafios, você também sente na carne cada uma de suas dores. A diferença é que aprendeu a lidar bem com elas, e não está nem aí se lhe causaram algum dano _ visível ou invisível. Você só quer saber do que virá depois… Minhas mãos começam a mudar também. Estão mais finas, e o esverdeado das veias faz contraste com o caramelo de minha pele… Aos poucos sigo seu caminho e desejo assemelhar-me a você. Nos gestos, nas andanças, na vontade de responder ao mundo como você tem respondido.


Quando seu dinheiro acaba

Maio 10, 2017

Texto: Gustavo Tanaka

Esse é um texto que eu queria ter escrito um bom tempo atrás.

Mas eu quis ter mais clareza antes de escrever. Queria dominar o assunto antes de poder falar sobre um tema tão delicado e que sei que amedronta muita gente.

Acontece que se eu esperar dominar um assunto para escrever, eu nunca vou escrever. Porque esse não é o meu lugar. Eu não sou o especialista que ensina. Eu sou o aluno que aprende junto.

Por isso vou escrever enquanto tomo consciência sobre o que me aconteceu.

Vivemos em uma sociedade baseada no dinheiro.

Quem tem dinheiro tem liberdade. Quem não tem dinheiro não é tão livre assim.

Quem tem dinheiro tem paz. Quem não tem dinheiro não dorme direito.

Quem tem dinheiro pode ajudar os outros. Quem não tem dinheiro não consegue nem se ajuda direito.

Quem tem dinheiro consegue ser criativo e pensar fora da caixa. Quem não tem dinheiro, não consegue pensar outra coisa senão em como vai pagar as contas.

Quem se tem dinheiro, consegue vibrar no amor. Quem não tem dinheiro vibra no medo.

Isso é o que eu sempre pensei. Eu vivenciei e respirei esse medo e essas dificuldades de quem não tem dinheiro quando meu dinheiro acabou.

O dinheiro acabou, a conta ficou negativa, o limite estourou, o banco negou empréstimo, a fatura do cartão de crédito estourou.

E aí nesse momento eu fui tomado por uma série de sentimentos que eu nem sabia que existiam dentro de mim.

Medo. Vergonha. Decepção. Ansiedade. Falta de confiança. Falta de autoestima. Medo dos outros. Medo da vida.

E o que eu aprendi com tudo isso, depois de ter passado e saído dessa situação?

1- Confiar no divino e não na conta bancária

Em um desses apertos que passei, estava quase sem dinheiro na carteira e sem possibilidade de passar no cartão. Precisava me locomover, pois estava fora de São Paulo. Comecei a fazer contas se poderia pegar um taxi, ou se deveria descobrir como pegar um ônibus naquela cidade.

Enquanto criava esses cenários na minha cabeça, a pessoa que estava trabalhando comigo se ofereceu para me dar uma carona, mesmo sendo totalmente fora de sua rota. Sem eu pedir ou falar nada.

Nesse momento, minha consciência me disse: Você tem que confiar no plano divino e não na sua conta bancária.

Desde então tenho percebido que devo desassociar a possibildade de fazer coisas de quanto dinheiro eu tenho. Não tem relação a capacidade de fazer com quanto dinheiro você tem.

Você não precisa ter o dinheiro para fazer nada. Mas confiar que as peças vão se encaixar e que o plano divino vai te colocar as pessoas que podem te ajudar. Mesmo que você não consiga pagar.

É um tanto quanto trabalhoso conseguir confiar nisso. Desde que “recebi” essa informação, tenho observado quantas crenças e padrões de programação eu ainda tenho.

Se a sua confiança estiver na sua conta bancária, vai chegar um momento em que ela vai acabar. Pode acontecer um acidente, uma doença, uma fatalidade, ou uma crise e aquela sua confiança vai embora porque seu saldo ficou menor. Mas se por outro lado, sua confiança for no mundo invisível não importa o que acontecer, você vai continuar com ela.

É se lembrar que não somos nós que estamos no controle de tudo. Existe uma inteligência por trás, movendo todas as peças.

2- Medo de falar sobre o dinheiro, afasta

Quando eu fico com medo de falar sobre dinheiro, eu crio resistência. Quando eu fico com receio de cobrar por um serviço, de pedir um cachê mais alto, ou de cobrar alguém que me deve, eu estou criando uma situação em que torno o dinheiro uma energia negativa que me traz mal estar.

Mas quando consigo falar livremente e abertamente, eu sinto essa energia fluir melhor.

O mesmo acontece com o medo de olhar a conta bancária. Cada vez que você evita olhar para a conta ou não tem clareza de quanto dinheiro você tem, você cria uma resistência. Sua vibração muda. E é essa relação que precisamos ressignificar. Para poder ter uma relação mais leve com o dinheiro e com sua conta.

Para mim, escrever esse texto já é em si uma libertação, porque é um tema sobre o qual ainda não escrevi.

3 – Você descobre quem pode te ajudar

Tem pessoas que vão te julgar por ser irresponsável e deixar o dinheiro acabar. Tem pessoas que vão te achar menos capaz e vão duvidar de você. E tem pessoas que vão naturalmente se afastar.

Mas quando seu dinheiro acaba e você começa a falar sobre isso com algumas pessoas, você vê que tem outras que te apoiam incondicionalmente. Pessoas que vão estar sempre ao seu lado, dispostas a inclusive contribuir financeiramente ou te ajudar a abrir portas para que sua situação financeira mude.

Algumas pessoas inclusive contam suas histórias de quando ficaram sem dinheiro e isso cria uma empatia muito profunda. Quando duas pessoas se conectam na vulnerabilidade, a conexão é muito mais forte.

4 – Você aprende a ter humildade

Ficar sem dinheiro é um negócio que mexe com a autoestima de qualquer um.

Eu vim de uma família de classe média alta e sempre tive acesso a tudo que quis. Sou muito grato aos meus pais. Com 18 anos comecei a trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro. E por mais de 10 anos sempre tive meu dinheiro e pude fazer o que tinha vontade.

Em 2015 quando passei por minha maior crise, eu me vi frágil. Eu que me achava um superprofissional, um executivo promissor, um grande empreendedor me vi frágil. Me senti uma criança pequena, sem saber o que fazer. Dependendo das respostas da vida. Dependendo da vida, como uma criança depende de sua mãe.

Nesse momento todas as máscaras caem. Nesse momento, aquela imagem que você projetou de si mesmo deixa de fazer sentido. E eu vi como nós, seres humanos somos pequenos.

Eu vivia acreditando nas fórmulas do sucesso, no poder do self made man, no poder da mente e da disciplina. E ali me vi longe de tudo isso. Foi nesse momento que minha conexão com a espiritualidade se estabeleceu.

Foi nesse momento de entrega que tudo mudou.

Eu aceitei que eu não tinha o controle. Que existia algo maior por trás de tudo isso. E algo maior me preparando para o meu caminho. Foi nesse momento que comecei a escrever…

5- Você se abre para os milagres

Eu comecei a perceber as sincronicidades da vida quando vi coisas acontecerem sem eu ter dinheiro.

Eu achava que quando fosse um milionário, eu poderia fazer o que eu quisesse e receberia convites de todos os lados para contar minha história de sucesso.

Eu teria dinheiro, poder e status.

Mas foi quando fiquei sem dinheiro, que minha fé se reestabeleceu. A confiança na vida e no plano divino fez eu me abrir para coisas que eu nem imaginava que poderiam acontecer. Convites para palestras, texto viralizando na internet, mensagens inesperadas, presentes na portaria do meu prédio, doações de dinheiro de pessoas que eu nem conhecia.

A vida é mágica. Ela opera por mecanismos que nossa mente racional não é capaz de prever.

E é somente quando aceitamos que não temos tanto poder ou controle que nos abrimos para esse milagres (ou sincronicidades). Enquanto você achar que é do seu jeito, você está fechado para esses milagres.

6- Você se conhece de verdade

Quando meu dinheiro acabou, eu me vi exposto. Nu. Diante de mim mesmo. Diante das minhas sombras e dos meus medos.

Eu tentei fugir, não olhar e fingir que eles não existiam. Mas eu não tive o que fazer. Quando olhei para eles, vi que eles eram menores do que eu imaginava. Vi que eu poderia lidar com minhas sombras. Vi que era natural sentir aquelas emoções negativas.

Eu as acolhi, olhei para cada sentimento, conversei com eles, como quem troca uma ideia com um amigo de longa data. E eu honrei a existência deles. Cada sentimento negativo me protegeu de alguma situação na vida.

Não negue suas emoções. Olhe para ela e as acolha.

Hoje eu sei que ficar sem dinheiro foi um grande presente que recebi da vida.

Ficar sem dinheiro não é legal. Tira o sono. Tira a paz. Traz o medo e remove a autoconfiança.

Mas quando você aprende a lidar com isso. A lidar com o que acontece dentro de você. Quando você aceita, para de lutar, resistir, se lamentar e consegue entregar, aí o esforço vai embora.

É tudo um jogo de cura. Cura dos padrões e das programações e condicionamentos da nossa sociedade. Cada desafio te dá a possibilidade de se conhecer de verdade, de remover crenças e se libertar de traumas.

A vida é um presente. Abra sua conta bancária, olhe para ela e ressignifique tudo o que esse saldo significa para você.

 


Eu não sou uma mulher difícil de amar

Maio 4, 2017

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Arte: Camelia Pham

Texto: Taís Bravo

Em janeiro deste ano li o Deslocamentos do feminino da Maria Rita Kehl, um livro que se debruça sobre a relação entre a clínica psicanalítica e a posição feminina fazendo uso, principalmente, da literatura como um documento que nos dá acesso ao inconsciente — que é sempre uma instância coletiva, ou seja, social — do século XIX. Nesse livro fica evidente o quanto a psicanálise dá à linguagem o estatuto de uma materialidade que constrói e transforma a vida humana a todo o tempo — uma perspectiva que me agrada muito — de modo que toda produção discursiva — literatura, jornalismo, marketing, textão no Facebook — tem um impacto no mundo. É, assim, tratando os livros como documentos privilegiados, que Kehl analisa de que maneira ocorre, no mesmo período no qual a psicanálise emergiu, a invenção de uma figura feminina que é profundamente atrelada a um ideal romântico.

São muitos os pontos que gostaria de destacar sobre esse livro, mas aqui me interessa sobretudo duas coisas: O procedimentos de amar, inventados por homens, que envolvem a figura feminina e a materialidade da literatura.

Kehl expõe como o ideal romântico aposta numa posição feminina que se fundamenta em procedimentos contraditórios: A recusa e a submissão. A recusa é a posição que a mulher deve sustentar antes do casamento, como um objeto casto que se valoriza apenas para instigar o prazer masculino da conquista. A submissão é o ato seguinte, no qual a mulher já conquistada deve venerar aquele que a domou. Para além das expectativas românticas conflituosas que essa invenção produz, há essa violência grotesca: Não cabe aí o desejo das mulheres, a performance tipicamente feminina nessa concepção de amor é passiva e moldada exclusivamente a partir do desejo do outro.

Lacan diz que o desejo é sempre desejo do outro o que parece mais uma dessas formulações obscuras que ninguém entende, mas que, para mim, se faz mais compreensível quando penso na recusa e na submissão como procedimentos que as mulheres podem executar, não como obrigação, mas como meio para um tipo de desejo: o de serem coisas desejáveis. É importante reconhecer que isso é uma opção. O que provoca a opressão das mulheres é quando essa parece ser a única opção e não cabe a nós o papel de desejantes. Quando o desejo das mulheres começa a mostrar os dentes e deixar suas manguinhas de fora algo já se estraga, porque é um risco na passividade que se espera desses seres.

O problema é enorme porque nenhuma opressão se estabelece sem uma gama de resistências. Dentro de cada narrativa que sustentamos por algum tempo como Lei ou Verdade há toda uma praga de possibilidades explorando cada milímetro que resta entre um símbolo e outro. E as mulheres, apesar ou justamente a partir do silêncio imposto, aprenderam a infestar o mundo com outras formas de dizer seus desejos. Assim, nasce a histeria, o corpo que fala o que a língua deve esconder, a astúcia das que fazem uso desse jogo, que sabem exercer os procedimentos guiadas por um desejo ativo, e a posição de infeliz coragem das que recusam.

“Assim como o orgulho das mulheres, antes do casamento, só se pode manifestar tenacidade com que elas resistem à entrega, a coragem feminina também não tem outro modo de emprego, e Stendhal refere-se à firmeza com que certas mulheres resistem ao amor, como a qualidade mais admirável que existe sobre a terra. Mas essa coragem, temperada pelo hábito do sacrifício e do pudor, assim como o orgulho feminino, são qualidades íntimas, invisíveis socialmente. “Uma infelicidade das mulheres é que as provas dessa coragem permaneçam sempre secretas e sejam quase impossíveis de divulgar. Uma infelicidade ainda maior é que ela seja sempre empregada contra sua felicidade”.

Cito 3 posições possíveis, mas isso não é para ser um catálogo, é o que consigo visualizar e se escrevo é porque preciso de um repertório mais amplo do que essa ninharia. Esse jogo, que a gente ainda costuma tomar como amor, me parece uma rua sem saída independente do lugar que se ocupa.


Tem sido recorrente um tipo de discurso entre as mulheres da minha idade: Somos difíceis de amar. Isso é afirmado não mais como uma falha nossa, mas como uma incapacidade masculina. Em poemas, músicas, artigos na internet e séries existe esse tema: Mulheres socialmente (mais) independentes e ideologicamente livres que estão insatisfeitas quando o assunto é o amor. Amar parece difícil, insuportável, impossível, uma trapaça.

O que essa produção discursiva sustenta, às vezes de modo mais implícito e em outras mais escancarado, é que as mulheres livres não são feitas para o amor, que os homens são incapazes de acompanhar seus ritmos e, principalmente, de aceitá-las indomáveis — basicamente uns boy lixo frouxo do inferno. Nessas narrativas, a mulher livre é sempre um excedente, algo intenso, pesado, sedento, desejante demais.

Tenho pensado muito sobre o que isso quer dizer sobre nós. E me pergunto o que significa esse “demais”, de onde tiramos esse parâmetro? De onde vem o tamanho que delimita esse excesso? Afinal, sobre quem e para quem estamos falando/escrevendo?


Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky, ou a Rodolphe Boulanger? Não; diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres — primeiro para os amantes, depois para si mesmas.

Maria Rita Kehl em A mínima diferença


Um texto privilegiado para pensar essa questão é o Para mulheres que são difíceis de amar, um poema da Warsan Shire que provoca uma intensa e contínua repercussão. A primeira imagem do poema é a de um cavalo que corre sozinho incapaz de ser domado. Essa metáfora que dialoga perfeitamente com uma cena icônica de Sex and The City em que Carrie faz um discurso sobre ser uma mulher indomável e que por isso perdeu seu amor.

Nós precisamos escolher nossas identificações e por isso a arte ou qualquer coisa que envolve representação importa, porque dita as nossas possibilidades. Assisti a essa cena aos 16 anos, querendo ser escritora, não sendo exatamente bem sucedida em minhas incursões amorosas e com um cabelo de adolescente que não sabe ainda o que pode ser, eu vi minha possibilidade de futuro quando Carrie defendia a si mesma enquanto uma mulher livre e indomável. Copiei o monólogo no meu diário — dá uma dorzinha imaginar quantas outras garotas, talvez até Warsan, fizeram o mesmo.

O problema dessa defesa é que ela não é sobre o desejo de Carrie e, sim, sobre uma falta recalcada. O discurso supostamente libertador é apenas uma elaboração fantasiosa que se sustenta em imagens muito antigas. Carrie quer defender a todo custo que é uma mulher livre guiada apenas pelo que deseja, mas, naquele momento, o que ela deseja é justamente o desejo de um homem que, por sua vez, parece desejar uma ideia de mulher completamente incompatível com quem ela é. Mas, em vez de acatar e sofrer essa perda, ela sai de cabeça erguida como uma vitoriosa, porque constata que o que ganha, quando perde o amor, é sua própria liberdade. Para não assumir que perdeu o homem que desejava, para desviar dessa vulnerabilidade insuportável, ela se consola enaltecendo uma falsa altivez, porque, assim, pelo menos, não perde a identidade que construiu para si mesma. A recusa ainda é o que conhecemos como um caminho para nossa liberdade.

O poema de Warsan Shire e o episódio de Sex and the City são eficazes porque afagam justamente a dor mais delicada quando se vive uma rejeição: a perda de si mesma, essa ferida narcísica, é um luto melancólico e trabalhoso. Os objetos de amor, a gente eventualmente percebe, que não são tão insubstituíveis assim (já dizia Beyoncé, não é mesmo?). O delicado nessa operação é o quanto colocamos de nós, a torção que aceitamos quando nos dispomos a amar mais do que ser uma coisa amável.

No entanto, Para mulheres que são difíceis de amar tem um complemento, entre parênteses, A afirmação. Ele compõe um dos 7 estágios da solidão no áudio livro Warsan versus a Melancolia, é, portanto, uma fase que se atravessa em um processo. É assim que tento pensar essa narrativa: Algo que precisamos gritar para o mundo, uma insatisfação que dói, porque significa se compreender por anos como algo que não pode ser inteira e que, quando ousa essa liberdade, é condenada ao destino de triste, louca ou má.


Acho que precisamos nos debruçar sobre essa ferida para seguir. Porque não pode ser aí o ponto de chegada. Porque enquanto nos tomamos como excesso usamos um parâmetro alheio a nós; porque quando acatamos a posição da recusa como uma altivez mitológica estamos fazendo uso de narrativas que não são sobre nós, mas sobre os desejos que nos atravessam; porque enquanto focamos na falha ou na incapacidade masculina não podemos perceber as possibilidades que existem nas nossas mãos. Em resumo, porque remoer essa ferida é preciso, mas não é nosso destino, não pode ser.


Tenho pensado muito sobre amor e escrita, os mitos e figuras que me formam enquanto mulher e escritora. E penso em como escrever melhor.

Acho que, nós, mulheres vivinhas neste ano de 2017, estamos presenciando uma nova onda feminista que produz uma proliferação de discursos e movimenta radicalmente nossos desejos.

Como escritora, quero fazer parte disso em um mergulho cuidadoso, entendendo que colocar uma palavra no mundo é um gesto de responsabilidade. Por isso pensar em qual verso/ história/ relato eu quero construir como uma possibilidade de futuro.

Como mulher, quero participar desses movimentos como uma tentativa de descoberta e investigação que amplie meus repertórios de possibilidades, que me permita ser, muito além da representação de uma figura, uma pessoa contraditória, polifônica e desejante.


Os sete estágios da solidão termina com uma oração:

se deixará meu coração macio

quebre meu coração todos os dias

Como Warsan diz no primeiro verso dessa saga, também não sei quando o amor se tornou tão insustentável, mas todos os dias peço às forças que desconheço que continuem me movendo, mesmo que isso me quebre. Porque estar vulnerável é melhor do que acatar a recusa e me colocar em uma redoma na qual sou soberana e inalcançável. Porque o meu desejo não é excesso, é parte fundamental de quem sou. E eu digo sim.


Traiu, acabou?

Abril 29, 2017

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Texto: Gustavo Gitti

Já fui “traído” duas longas vezes. E acompanho quase diariamente casais com relações paralelas, de uma noitada a uma outra família. Em todos os casos, boa parte da dor vem de crenças (“Só os insatisfeitos traem”) e regrinhas (“Se ele ficar com outra, está tudo acabado!”) que fazemos questão de manter desde o começo.

A vida dá risada de nossas ideias sobre como a vida deveria ser. Enquanto assinamos papéis, ela escancara: todas as relações são abertas. Nenhum compromisso de fidelidade consegue minar a possibilidade de aparecer um terceiro. E não defendo a poligamia. Falo para monogâmicos. Um casal que se propõe a uma relação duradoura precisa estar disposto a enfrentar uma eventual paixão intrometida. Em cinco, quinze, vinte anos, grandes chances de acontecer. Se a traição for um motivo consensual para o fim, algo está torto desde já: estamos colocando a relação longe da imprevisibilidade, ou seja, num lugar sem vida.

Tal familiarização com a realidade das relações paralelas reduz a luta contra a vida (“Isso não deveria ter acontecido!”), a sensação de fracasso (“Se aconteceu, eu falhei”) e aquela autorização para soltar o pior de nós (“Agora é inevitável surtar e culpar”). E se aceitarmos que é OK acontecer, que necessariamente não é relacionado a algum erro nosso e que sofrer é opcional? Dispensada a lei “traiu, acabou”, surgem espaços para contar ou não contar quando acontecer, sem tanto medo de afastar imediatamente o outro. Essa simples disposição evita aquele imbróglio de mentiras, vidas particionadas, culpa e descobertas traumáticas.

É como se um dissesse ao outro: “Se você se envolver com outros, vai doer muito, mas não quero que meu ciúme e sofrimento direcionem nossa vida. Se o melhor para ambos for seguir, quero ser capaz de seguir e superar minhas aflições. Se o melhor para ambos for terminar, quero ser capaz de terminar sem culpados”. Afirma-se o eixo do casal: “Podem surgir terceiras, quartas pessoas, mas elas não vão comandar nossa relação, isso cabe a nós”.

A traição não é um fato — externo, independente de nossa percepção. É uma experiência: nos sentimos traídos, abandonados, rejeitados, humilhados. Toda experiência passa por corpo e mente, então pode ser transformada. É possível seguir um relacionamento em meio a um amor paralelo sem olhar, pensar, sentir e agir excessivamente da posição do corno (quando o peito vira um corredor de ar frio e alucinamos que cenas e pessoas têm o poder de nos machucar).

Não é fácil, mas por que seria?