Dia do psicólogo 27/08

Agosto 27, 2018

Texto: Ana Suy

Em 5 anos de graduação a gente mais desaprende do que aprende, porque é preciso antes de tudo, aprender a “des-saber” aquilo que a gente supõe que sabe, para ser um bom psicólogo. Se despir do senso-comum é a primeira tarefa de quem quer aprender a escutar – não aquilo que o outro diz e todo mundo ouve – mas aquilo que o outro diz e ninguém mais, nem ele mesmo, ouve.

Então, despidos o máximo possível do nosso próprio umbigo, descobrimos qual é a teoria que sustenta, acima de tudo, o nosso não- saber: a isso chamamos de “abordagem psicológica”. É ela que nos orienta no trabalho.

Nesse meio tempo há muitas crises existenciais, muita angústia, pois estar cheio de certezas e saberes é fácil. Mas sustentar a interrogação maior que é estar diante de outro ser humano na tentativa de ouvir para além do que ele supõe o que diz, é tarefa para os apaixonados.

Aqueles que levam a sério sua paixão – o ser humano – e que sabem da responsabilidade que é estar diante de um outro munido de teorias, mas despido de si mesmo, e diante de um outro que, frequentemente nos endereça o que há de mais enigmático em si, trabalham para muuuuuuuito além da graduação. Estudam muito. Fazem formações, especializações, análise, psicoterapia, supervisões. Leem muito. Trabalham para julgar cada vez menos. Vez em quando escorregam em algo disso, mas se policiam.

Porque ser apaixonado pelo psiquismo humano é sustentar, cada um à sua própria linguagem, que somos seres faltantes. E que é o reconhecimento disso, e não o tamponamento com objetos e/ou pessoas quaisquer, que nos prende no gosto pela vida e no laço com as pessoas.

E a esses profissionais, que levam muito a sério seu trabalho, que estão permanentemente estudando, que são atravessados pela ética de levar o trabalho a sério mais do que as próprias boas intenções, desejo: parabéns pelo dia dos psicólogos!

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Entender e compreender

Agosto 24, 2018

Texto: Isabela Couto

– Isabela, só fazer a constelação familiar e ver as dinâmicas ocultas da minha história vão mudar minha vida?

– Oi. Acho que essa é a pergunta que mais recebo. Já escrevi um ou outro texto sobre. Também já fiz uns vídeos.

A resposta é sempre não, claro que não basta.

É um primeiro passo trazer o “não-sabido” à baila, mas não é o suficiente não.

Bert divide esses instantes em dois: entender e compreender.

Compreender está para além-do-entender. A compreensão é agir. Ir pra prática.

Pegou a dieta com o nutricionista? Agora vai praticar (agir) conforme novos hábitos e posturas, certo? Bolacha água e sal, queijo magro, alface e pronto.

Além de disciplina é preciso haver submissão. Submeter-se às leis do orgânico. Tantas calorias e mais nada, senão não rola resultado favorável nenhum.

Além da submissão à sua natureza, nos des-mi-mi-mi-zar é o próximo sinal de que estamos no bom caminho.

Tirar o mi-mi-mi, o lamento. Compreender, de vez, que você não controla tudo e que, contra fatos não há argumentos. Paz na alma frente aos limites impostos.

Meu irmão diz que aqui em casa a gente tem dna de baleia.

Não, meu irmão não está dizendo que a gente gosta de nadar muito. Ele está se referindo, quando diz algo assim, à nossa dificuldade de nos manter magros.

Qualquer água com gás nos engorda. Frente a esse dado biológico natural do nosso clã (que tem a baleia e não o macaco como ancestral), nao há o que fazer a não ser comer frutas e esquecer da lasanha.

Então, repassando:

1) entender (vídeos, livros, consciência, teoria)
2) compreender (submeter-se, des-mimimizar, praticar)

Nao sei se estou ajudando muito, vou deixar um texto do Bert:

“Quando alguém experimenta ainda criança algo terrivel, isso é freqüentemente reprimido. A psicanálise nos mostrou que é importante trazer à luz, o que foi reprimido.

Mas a observação mostra que quando algo é trazido à luz isso ainda não é a solução.

Ainda é necessário um outro passo importante.

O passo importante é que a pessoa concorde com o que aconteceu sem lamentação.

Por exemplo, alguém sofreu um acidente grave e talvez tenha ficado paraplégico.

Ele se recorda disso de qualquer forma.

Contudo, não existe solução se não concordar com o que aconteceu sem lamentação.

Este é um passo dificil. Mas, o contrário é pior. Precisa-se somente imaginar o que acontece se ele não faz isso, se lamenta isso.

Entretanto, se conseguir dar esse passo, da impotência que agora vivencia – ele não pode mesmo mudar mais nada – concordar com o que aconteceu, de forma que pode ser como é, alcança, no momento, uma profundeza na alma e uma força que outras pessoas não podem ter, exceto se elas também tiverem vivenciado algo semelhante e concordaram com isso.”


PSICANÁLISE, COISA DO PASSADO?

Agosto 22, 2018

Texto: Ana Suy

Acho graça de um dito do senso-comum: o de que o que interessa à psicanálise é o passado.

Parece-me que o interesse da psicanálise é, justamente, aquilo que não passou.

Sofremos de vestígios vivos de passados que, ao invés de passarem, se entranharam silenciosamente em nós.

Frequentemente, um sintoma é consequência de uma negação do ego em transformar um acontecimento em palavras – na tentativa de tornar o evento menor.

Sem palavras, os passados não passam, eles cravam suas unhas na carne humana e tornam-se palavras inflamadas, palavras que não vieram à tona, que não foram ditas e muitas vezes sequer foram pensadas.

Sofremos porque algo do passado-ficado não cansa de se alojar no presente.

Assim, a psicanálise jamais trata do passado – pois não se pode retornar ao ontem, assim como não se pode analisar um sonho, mas apenas o relato de um sonho. Quem conta um conto, o faz no presente.

À psicanálise interessa que haja um movimento entre o passado e o presente, entre o dentro e o fora, entre a alegria e a dor. As palavras são meios de transporte para que os afetos circulem e nos modifiquem.


Sobre as dificuldades amorosas

Agosto 7, 2018

Texto: Ana Suy

Que duas pessoas se amem, não significa que o que há entre elas seja o suficiente para que fiquem juntas.
O incompreensível do amor nos desperta para o que há de misterioso e indomesticável em cada um de nós.
Afinal de contas, qual é a lógica que sustenta o despertar do amor de uma pessoa por outra, se o amor não se apoia em fórmulas, explicações ou compreensões? Qual é o sentido que há em uma pessoa específica despertar Alascas na barriga do outro e todas as outras pessoas não?
Se por um lado o amor (pelas vias narcísicas da reciprocidade) pode nos apaziguar dores existenciais e da alma, por outro lado (pelas vias da pulsão) o amor pode nos despertar para aquilo que há de mais obscuro em cada um de nós, atestando a fragilidade do romantismo.
O problema do amor romântico é a idealização de que o amor completa. É o contrário, o amor nos dá notícias, pelas avenidas da castração, da falta de cada um. Ninguém se sente mais incompleto do que um amante.
Assim, diferentemente do fato de duas pessoas se amarem ser o suficiente para que fiquem juntas, o amor pode causar muito sofrimento e, por isso, defesas.
Há, inclusive, quem não consiga ficar com uma pessoa, justamente por amá-la!
Para alguns, só é possível sustentar um relacionamento com quem não se ama, pois o amor, pela convocação que faz à pulsão e ao gozo, complica tudo.
Daí a enorme dificuldade de conjugar desejo e gozo, que, segundo Lacan, só é possível de se fazer pela via do amor.


Humanidade na justiça

Agosto 4, 2018

Texto: Andréa Pachá (coluna no O Globo)

O ambiente irascível e binário no qual estamos mergulhados, potencializado pelo uso predatório das redes sociais, tem nos levado a paradoxos inexistentes. Defender direitos humanos não significa proteger o crime e a impunidade. Ao contrário, quando nos afastamos de princípios estruturantes da civilização, é que somos tragados para o pântano da barbárie.
Depois de duas grandes guerras, e para impedir que o horror se reinstalasse no mundo, a ONU, reunida em Assembleia, proclamou a Declaração Universal de Direitos Humanos, conclamando as nações a promoverem o respeito à humanidade e às liberdades, um compromisso de todos para um espaço coletivo mais digno e justo. (https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10133.htm).
Como, em tão pouco tempo, nos distanciamos tanto do significado do “humano”, e banalizamos a importância da liberdade? Como aceitamos campanhas de sucateamento de princípios protetores da dignidade? Como assistimos aplausos à violência estatal, à crueldade e à humilhação? Em que esquina deixamos de nos emocionar com as mortes, especialmente de jovens e crianças negras, que se transformam em estatísticas? Como aceitamos, sem questionar, que a condição racial ou social defina quem são os suspeitos de sempre?
Linchamentos, condenações sumárias, uso indiscriminado de algemas e discursos de ódio tem sido naturalizados, como se fossem paliativos ao medo e à indignação causada pela escalada dos crimes e da insegurança. “Onde há fumaça há fogo”, “quem não deve não teme”, “bandido bom é bandido morto” são mentiras que, repetidas insistentemente, se transformam em verdades. A violação dos direitos humanos, acolhida pela sociedade, não só nos desumaniza, como esgarça a proteção para a vida em grupo, sem o que, sucumbimos ao arbítrio.
Não temos conseguido responder à intolerância, senão com a linguagem da própria intolerância e insistir nessa estratégia é um atalho para o fim das liberdades, pois só quem ganha com a intolerância são os intolerantes. Gandhi já advertiu: olho por olho e todos acabarão cegos.
Não é ingênuo defender de forma radical a presunção da inocência, o direito ao contraditório, a dignidade, a liberdade e o desejo de paz. Ingênuo é acreditar que, apostando nas exceções, se preservará alguma garantia. Princípio ou vale para todos, ou não é princípio. Impossível aplaudir escrachos públicos, conduções arbitrárias, vazamentos de gravações e tortura, para posteriormente cobrar a aplicação do direito, quando formos vítimas das mesmas violações.
Na violência, pouco se aprende e nada se ensina. Temos convivido com carnificinas, insegurança devastadora e potencialização do medo, que nos paralisa e impede um debate racional sobre o assunto. No discurso reativo, todos queremos justiça. A palavra justiça, contudo, precisa reencontrar seu significado. Jamais será sinônimo de vingança, sentimento que reduz e aprisiona.
Somos seres da justiça, da cultura, da educação. Somos permeáveis aos valores humanos e, ao contrário dos fanáticos, conhecemos a linguagem do humor e do afeto. É preciso compreender que liberdade e justiça são produtos de primeira necessidade nas democracias, e que direito humano bom não é direito humano morto.
Rubens Casara, na sua obra “O Estado pós-democrático” narra, por meio de uma fábula oriental, a história de um homem que, enquanto dormia, teve a boca invadida por uma serpente. Alojada no estômago, a serpente passou a controlar todas as suas vontades e ações. Um dia, ao acordar, percebeu que o monstro havia partido e ele era livre outra vez. Se deu conta, então, que não sabia o que fazer com a sua liberdade. Perdeu a capacidade de desejar, de pensar e de agir com autonomia.
Reconhecer a importância dos direitos humanos é tentar destruir a serpente que volta e meia aparece para nos escravizar. É resgatar o conteúdo humano em nossas vidas, afirmando, de forma absoluta, a liberdade e o afeto como antídotos ao autoritarismo e à violência.


Amor próprio

Agosto 3, 2018

Texto: Elaine Lopes

Você sabe como colocar o amor próprio em prática? Esse post é dedicado a te fornecer dicas para cuidar mais de si mesmo!

1. Em primeiríssimo lugar: não se culpe! Lembre-se: individualidade é um ato de amor! Portanto, pare de justificar-se: a si mesmo e aos outros, por cuidar tão bem de você!

2. Cuidar de si mesmo é um direito adquirido! Entenda isso, e entenda também que quanto melhor você estiver, mais útil será para os demais.

3. Faça do seu tempo, um tempo seu! Se suas necessidades não forem uma prioridade para você, não serão para mais ninguém.

4. Acolha suas emoções e permita-se sofrer. Não negue uma dor como se, dessa forma, todos os problemas fossem desaparecer. Reprimir a forma como você se sente sobre uma situação serve apenas para retardar sua felicidade.

5. Identifique quais aspectos da sua vida estão causando infelicidade e avalie o quão essenciais eles são para você. Pergunte a si mesmo se isso é realmente importante e se vale o alto preço das consequências negativas. E se necessário, desapegue daquilo que não te faz bem, seja uma profissão, uma amizade ou um relacionamento.

6. Mantenha ao seu redor apenas pessoas que lhe fazem bem. Reconheça e aprecie as pessoas que são positivas e edificantes em sua vida, e demonstre seu compromisso para com elas.

7. Lembre-se que há apenas três coisas na vida que você pode controlar: o que você pensa, o que você diz e o que você faz. As demais, estão completamente fora do seu controle. Assuma isso e aja com consciência. Não se permita controlar pelos outros, não se influencie com a opinião alheia e seja consciente do que você faz e de por que você faz. E se necessário, aprenda a dizer “não”.


Era o defeito nelas que o interessava

Agosto 2, 2018

Texto: Ana Suy

Desde pequeno, na escola, primeiramente se apaixonou pela menina que tirou zero na prova de matemática. Ele, que era o ajudante da professora, passou a auxiliar a garotinha nas operações de dividir. E porque ela aprendia com ele, ele aprendeu a amá-la. Mas quando a menina ficou boa em matemática, o interesse dele por ela, se dissipou.

Depois se apaixonou pela menina de olhos tristes que chegou no meio do bimestre na escola e não conseguia se enturmar. Ele tornou-se uma espécie de guia turístico para a pré-adolescente na escola, situando-a a respeito das histórias de cada pessoa e de cada lugar no colégio. E porque ele fazia os olhos tristes da menina ficarem menos tristes, aprendeu a amá-la. Mas quando a garota tinha meia dúzia de amigos, ela se tornou desinteressante para ele.

Mais tarde se apaixonou pelos caninos superiores encavalados de uma enfermeira, pela crise de rinite da moça do caixa da livraria, pelo luto da moça que tinha acabado de perder um irmão, pela carência da mulher casada cujo marido só sabia viajar a trabalho e esquecera-se dela, pela frustração diante da tela trincada do iphone da mulher com quem esbarrou na rua.

E assim o moço deslizava seu interesse de mulher em mulher, sem conseguir fixar seu desejo por muito mais tempo do que os problemas que essas mulheres tinham. Justificava a evaporação repentina do seu interesse por aquelas moças com teorias a respeito dos amores líquidos, da modernidade e da geração x, y, z, alfa, beta etc.

Até que um dia o homem conheceu uma mulher que lhe despertou um interesse diferente, mas ele não sabia explicar por que era diferente. E não sabendo explicar, mas querendo sempre ter tudo muito explicadinho, achava que a moça tinha um “defeito oculto”. Ele não conseguia destacar se era a diferença de tamanho entre os olhos dela, ou se era a língua levemente presa para falar o “s”, ou se era a vergonha que ela cuspia pelos olhos quando confundia direita com esquerda. E por não saber localizar o “defeito” da moça, foi prestando cada vez mais atenção nela, até que se esqueceu de achar que queria consertar algo nela. Foi assim que, sem saber, ela consertou o defeito dele.