Fundo do poço

Julho 16, 2019

Texto: Cris Guerra

Sai dessa, diz aquele amigo que te vê no fundo do poço. E sair da tristeza passa a ser a sua obsessão na vida. Como se não bastasse estar triste, você se culpa por estar triste. Já parou pra pensar nisso? O mundo não dá espaço para quem não sorri. E a gente passa todo dia por um zumbi ou outro, que está insatisfeito com a própria vida, mas não se sente à vontade nem para admitir isso. Acontece que os momentos de tristeza são grandes oportunidades de aprendizado, talvez as maiores que a gente tem na vida. Momentos de tristeza podem nos ajudar, inclusive, a ser mais felizes. Mas não há como aprender quando a gente só se preocupa em não estar ali. Não esqueço o que uma grande amiga me disse quando eu estava vivendo o fim de um relacionamento: “A tristeza nos coloca bem perto de nós mesmos”. E como ela tinha razão. Nesse período de sofrimento eu fui me conhecer e me cuidar como nunca. E como eu cresci. Acabei descobrindo que uma parte da minha tristeza não era por causa do fim do relacionamento, em si, mas por não aceitar que a vida tem momentos em que simplesmente a gente não está alegre. O que não significa que a gente não seja feliz. Isso mesmo, a gente ESTÁ alegre, um estado transitório. Mas a felicidade é uma aquisição, uma sabedoria, algo que a gente se torna ou, veja só, descobre que já é. Não é ESTAR feliz. É SER. Pense nisso. Alegria costuma vir de fora. Felicidade vem de dentro, e não está no futuro, na dependência de algo externo: é aqui e agora. A felicidade é maior que um momento. E dentro dela cabem, sim, momentos de tristeza. O problema não é ir para o fundo do poço. Até porque todo mundo vai lá algumas vezes na vida, mesmo quem não confessa. O problema é ir para o fundo do poço e não aproveitar a viagem, não voltar melhor de lá. Então, enquanto você estiver por lá aproveite pra se conhecer melhor e SAIR MELHOR DESSA. Isso sim.

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O que torna seu dia especial?

Julho 12, 2019

Texto: Vera Leon

Não sei se também era assim com você, lá naquele passado que a memória ainda alcança. A melhor roupa era sempre guardada para ocasiões especiais, que invariavelmente eram dias sem muita novidade. Ir à missa todo domingo, bem de vez em quando ir ao cinema e, a cada tanto, os aniversários na família. E como criança não tinha querer, era assim que a banda tocava.

Ainda bem que viver pressupõe, principalmente, aprender. E foi uma maravilha descobrir que todos os dias são especiais, e bem comportam que a gente use a roupa que bem entender, aquela que combina com o estado de espírito e não segue a ditadura das vitrinas, ou o calendário que pretende nos dizer se é “assim” ou “assado”.

A bem da verdade, há dias em que a gente se sente “como quem partiu ou morreu”, mas já na manhã seguinte a jangada se põe ao mar, confiando que um peixe bom virá de lá. Ocasião especial, portanto, é hoje, seja esse dia de choro e vela, seja ele de batom vermelho e perfume de lavanda.

Afinal, o que torna o seu dia especial senão vc mesmo?


JÁ NÃO PODEMOS MAIS VOAR SEM FREIOS…

Julho 9, 2019

Texto: Clara Baccarin

Estamos nos tornando seres sem sonhos.
Por termos que lidar com acontecimentos amargos e imprevistos na nossa vida, por termos que engolir nossos erros e derrotas e esconder nossas fraquezas. Por termos que passar por lutos de pessoas ainda vivas e continuar encontrando os fantasmas sem poder no entanto toca-los.
Por termos aprendido que ter é muito mais importante do que querer, que possuir nos faz mais ricos do que apenas almejar, que concretizar ideias e vontades é mais valioso do que o simples imaginar.
Por já não podermos, como era na infância, gargalhar descomedidamente por conta de uma simples brincadeira, e chorar desconsoladamente por uma viagem interrompida. Por não podermos nos aceitar fracos, infantis, ingênuos…
Pelo mundo exigir da gente mais sensatez do que paixão.
Em algum momento, desenvolvemos a capacidade de controlar nossos sonhos antes que eles nos devorem ou deformem.
Em algum momento, desaprendemos a sonhar como verbo intransitivo. A sonhar como fim em sim mesmo.
Desaprendemos o ato de contemplar e começamos a fabricar metas, a visualizar alvos, a traçar passos realistas.
Em algum momento, aprendemos a gerenciar nossas emoções da mesma forma que gerenciamos nossos compromissos profissionais. Agrupamos nossos sonhos na ala das metas a serem cumpridas, catalogamos os nossos sentimentos, acompanhamos atentamente nossas variações internas a fim de podar aquelas sensações que podem nos fazer parecer meio loucos, meio bobos, meio infantis.
Aprendemos a vetar os comportamentos inaceitáveis. Aprendemos a não nos permitir seguir impulsos, a não aceitar certas atitudes nas outras pessoas, e quando nos deparamos com essas atitudes, sem pensar e sem dó, jogamos no nosso lixo virtual e taxamos como spam.
Afinal não podemos perder tempo com coisas incertas, erradas e que não trazem bons frutos imediatamente. Não podemos sujar nossos limpos e lineares caminhos com sentimentos confusos, pessoas inconstantes, acontecimentos avassaladores.
Não temos tempo para o sofrimento! Sim porque, sonhar sem realizar é puro sofrimento.
Por não aceitarmos que sonhos às vezes não se cumprem. Que promessas de momentos às vezes servem apenas para adoçar as lembranças. Que paixões vivem além da presença do outro.
Aprendemos a criar o nosso próprio ‘manual do não sofrimento’.
E assim nos protegemos, e assim não precisamos passar pelas mesmas dores duas vezes. Pois, seguindo esse manual, já sabemos, antes mesmo de olhar mais atentamente nos olhos do outro, onde não devemos pisar. Pela comparação, já reconhecemos de cara o que pertence à lista das coisas inaceitáveis.
Aprendemos a assassinar a paixão. Aprendemos a culpar o outro por não se enquadrar nas nossas listas insanas. Aprendemos a culpar o tempo, a exigir muito de nós mesmo. Nos tornamos seres de mentes cheias, e corações calados.
Aprendemos a organizar o que era de natureza caótica.

E assim nos poupamos. E assim ganhamos tempo nessa nossa vida tão curta. E assim nos tornamos cirurgiões plásticos de nossos sentimentos. E assim, ao lapidarmos os nossos próprios excessos e os descompassos, muitas vezes jogamos no lixo a habilidade de sonhar acima de tudo e apesar de tudo.


Deixe a vida te encontrar

Julho 6, 2019

Texto: Gustavo Tanaka

Lembro de quando eu era criança e ia ao supermercado com minha mãe.

Ela me dizia que se eu me perdesse, eu deveria ficar parado onde eu estivesse que ela iria me encontrar. Se eu saísse andando por aí, poderíamos nos desencontrar.

Penso que a vida e as oportunidades funcionam assim também.

Talvez aquilo que você esteja buscando, esteja te procurando também. E você andando por aí se afasta cada vez mais e vocês nunca se encontram.

Quando estou muito ocupado, não dou espaço para oportunidades.

Eu sinto isso nos eventos que participo. É sempre tanta gente legal, que quero conversar com todo mundo. E aí, vira e mexe recebo uma mensagem de alguém que me diz: “Queria conversar com você, mas você estava muito ocupado, então não consegui falar com você.”

Às vezes acho que essa mesma mensagem poderia estar sendo enviada pelo universo, ou por algo que estou buscando na minha vida. Uma oportunidade, uma pessoa, um projeto, ou uma ideia.

Ela pode estar bem aqui, quase batendo na minha porta, mas enquanto eu não estiver disponível, não vai acontecer.

Por isso eu valorizo tanto os espaços vazios, o tempo para contemplação.

São momentos em que a vida pode me encontrar. Que as boas ideias podem surgir, que insights e memórias acham espaço para aparecer.

Eu gosto de deixar janelas na minha agenda sem compromissos. São horários reservados para mim. Quando alguém desmarcar uma reunião, eu fico feliz que terei um tempo livre, ao invés de preencher com outra atividade.

Os grandes acontecimentos da minha vida não foram cavados por mim. Os melhores eventos, os grandes encontros e as melhores ideias não foram coisas que eu fui atrás. Eu estava aqui. E eles puderam me encontrar.

Quando estou agitado, o que costumo fazer é parar, respirar, meditar, cuidar da casa, dos arquivos, das gavetas. Cuido do que está aqui e agora. Deixo o meu entorno preparado para os encontros acontecerem.

Neste mundo de alta performance, onde está o espaço para a vida te encontrar?


A VIDA DE TUA VIDA

Julho 2, 2019

Texto: Oscar Quiroga

A Vida de tua vida é a dimensão em que tu te movimentas e experimentas ser, existia antes de teu nascimento e continuará se desenvolvendo depois de teu falecimento, é nela que tua existência tem suas raízes, ela é o objetivo de tudo que buscas e anseias, ela é a eternidade de que é feita a temporalidade de tua existência.
A Vida de tua vida te contém e compreende, mas tu, acompanhando o estágio de evolução e entendimento do reino a que pertences, não desenvolveste a percepção necessária para a compreender, e isso te deixa numa condição ignorante que é muito difícil de assumir, porque a maior parte do tempo precisas fingir que tens tudo sob teu controle, e de pouco adiante adotares um ar de humildade falso, porque enquanto buscas razões para explicar tudo que te acontece, isso denuncia que precisas e queres estar no controle, e estar no controle é a pretensão de ser maior do que a Vida de tua vida.
Não importa, até isso faz parte da delícia e da dor da existência civilizada que nós, humanos, inventamos por aqui.
O que não pode acontecer é que tu mintas a ti com tanta insistência que deixes de aceitar que a Vida de tua vida será sempre maior que ti.


Perguntas tão importantes

Julho 1, 2019

Texto: Ana Suy

Quando é que um fim começa e quando é que ele termina?

Quando é que algo começa e quando é que algo para de começar?

Como diferenciar o nascer e o por do sol apenas por suas cores?

Por que tudo é mais lindo quando está chegando ou partindo?

Será possível que algo parta sem que nos parta?

E parir algo ou alguém, quando é que começa e quando é que termina?

Por que estamos sempre tentando prolongar o fim das coisas?

É água no xampu, é rímel que não tem nada no pincel, é tesoura na pomada e no pote de creme, é fingir que não ouviu o que ouviu, sim, é esquecer que pensou o que não para de pensar.

Por que a gente não tem uma matéria na escola que nos ensine a reconhecer o fim das coisas?


Deixa de bobeira

Junho 29, 2019

Texto: Daniel Duarte

Ô, menina.
Deixa de bobeira,
a vida a vezes dá rasteira, e a gente cai.
Ô, menina,
Não tem porquê chorar,
seu coração não é feito de vidro,
e você já se chocou com esse mesmo concreto antes.
Ô, menina.
eu quero te ver feliz,
porque esse teu sorriso é curva linda demais pra deixar a tristeza apagar.
Então escuta,
essa não é a primeira decepção,
nem o primeiro não,
nem a primeira perda.
Tu já enfrentou ondas mais fortes,
e continuou a velejar.
Se lembra que esse teu peito de estrelas já perdeu a direção antes,
mas Deus nunca te deixou na mão – nem pelo meio do caminho.
Você tem essa mania de achar que não vai aguentar,
e no dia seguinte, a vida te prova que tudo passa.

Ô, menina,
pra quem já dançou tanto no barro,
estar com lama até a cabeça nunca foi problema.
Nesse jardim da vida.
a regra é clara:
Se a gente não molhar, não cresce.
Então já sabe, meu amor;
Depois do choro, a gente sempre floresce.