Sobre as dificuldades amorosas

Agosto 7, 2018

Texto: Ana Suy

Que duas pessoas se amem, não significa que o que há entre elas seja o suficiente para que fiquem juntas.
O incompreensível do amor nos desperta para o que há de misterioso e indomesticável em cada um de nós.
Afinal de contas, qual é a lógica que sustenta o despertar do amor de uma pessoa por outra, se o amor não se apoia em fórmulas, explicações ou compreensões? Qual é o sentido que há em uma pessoa específica despertar Alascas na barriga do outro e todas as outras pessoas não?
Se por um lado o amor (pelas vias narcísicas da reciprocidade) pode nos apaziguar dores existenciais e da alma, por outro lado (pelas vias da pulsão) o amor pode nos despertar para aquilo que há de mais obscuro em cada um de nós, atestando a fragilidade do romantismo.
O problema do amor romântico é a idealização de que o amor completa. É o contrário, o amor nos dá notícias, pelas avenidas da castração, da falta de cada um. Ninguém se sente mais incompleto do que um amante.
Assim, diferentemente do fato de duas pessoas se amarem ser o suficiente para que fiquem juntas, o amor pode causar muito sofrimento e, por isso, defesas.
Há, inclusive, quem não consiga ficar com uma pessoa, justamente por amá-la!
Para alguns, só é possível sustentar um relacionamento com quem não se ama, pois o amor, pela convocação que faz à pulsão e ao gozo, complica tudo.
Daí a enorme dificuldade de conjugar desejo e gozo, que, segundo Lacan, só é possível de se fazer pela via do amor.

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Humanidade na justiça

Agosto 4, 2018

Texto: Andréa Pachá (coluna no O Globo)

O ambiente irascível e binário no qual estamos mergulhados, potencializado pelo uso predatório das redes sociais, tem nos levado a paradoxos inexistentes. Defender direitos humanos não significa proteger o crime e a impunidade. Ao contrário, quando nos afastamos de princípios estruturantes da civilização, é que somos tragados para o pântano da barbárie.
Depois de duas grandes guerras, e para impedir que o horror se reinstalasse no mundo, a ONU, reunida em Assembleia, proclamou a Declaração Universal de Direitos Humanos, conclamando as nações a promoverem o respeito à humanidade e às liberdades, um compromisso de todos para um espaço coletivo mais digno e justo. (https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10133.htm).
Como, em tão pouco tempo, nos distanciamos tanto do significado do “humano”, e banalizamos a importância da liberdade? Como aceitamos campanhas de sucateamento de princípios protetores da dignidade? Como assistimos aplausos à violência estatal, à crueldade e à humilhação? Em que esquina deixamos de nos emocionar com as mortes, especialmente de jovens e crianças negras, que se transformam em estatísticas? Como aceitamos, sem questionar, que a condição racial ou social defina quem são os suspeitos de sempre?
Linchamentos, condenações sumárias, uso indiscriminado de algemas e discursos de ódio tem sido naturalizados, como se fossem paliativos ao medo e à indignação causada pela escalada dos crimes e da insegurança. “Onde há fumaça há fogo”, “quem não deve não teme”, “bandido bom é bandido morto” são mentiras que, repetidas insistentemente, se transformam em verdades. A violação dos direitos humanos, acolhida pela sociedade, não só nos desumaniza, como esgarça a proteção para a vida em grupo, sem o que, sucumbimos ao arbítrio.
Não temos conseguido responder à intolerância, senão com a linguagem da própria intolerância e insistir nessa estratégia é um atalho para o fim das liberdades, pois só quem ganha com a intolerância são os intolerantes. Gandhi já advertiu: olho por olho e todos acabarão cegos.
Não é ingênuo defender de forma radical a presunção da inocência, o direito ao contraditório, a dignidade, a liberdade e o desejo de paz. Ingênuo é acreditar que, apostando nas exceções, se preservará alguma garantia. Princípio ou vale para todos, ou não é princípio. Impossível aplaudir escrachos públicos, conduções arbitrárias, vazamentos de gravações e tortura, para posteriormente cobrar a aplicação do direito, quando formos vítimas das mesmas violações.
Na violência, pouco se aprende e nada se ensina. Temos convivido com carnificinas, insegurança devastadora e potencialização do medo, que nos paralisa e impede um debate racional sobre o assunto. No discurso reativo, todos queremos justiça. A palavra justiça, contudo, precisa reencontrar seu significado. Jamais será sinônimo de vingança, sentimento que reduz e aprisiona.
Somos seres da justiça, da cultura, da educação. Somos permeáveis aos valores humanos e, ao contrário dos fanáticos, conhecemos a linguagem do humor e do afeto. É preciso compreender que liberdade e justiça são produtos de primeira necessidade nas democracias, e que direito humano bom não é direito humano morto.
Rubens Casara, na sua obra “O Estado pós-democrático” narra, por meio de uma fábula oriental, a história de um homem que, enquanto dormia, teve a boca invadida por uma serpente. Alojada no estômago, a serpente passou a controlar todas as suas vontades e ações. Um dia, ao acordar, percebeu que o monstro havia partido e ele era livre outra vez. Se deu conta, então, que não sabia o que fazer com a sua liberdade. Perdeu a capacidade de desejar, de pensar e de agir com autonomia.
Reconhecer a importância dos direitos humanos é tentar destruir a serpente que volta e meia aparece para nos escravizar. É resgatar o conteúdo humano em nossas vidas, afirmando, de forma absoluta, a liberdade e o afeto como antídotos ao autoritarismo e à violência.


Amor próprio

Agosto 3, 2018

Texto: Elaine Lopes

Você sabe como colocar o amor próprio em prática? Esse post é dedicado a te fornecer dicas para cuidar mais de si mesmo!

1. Em primeiríssimo lugar: não se culpe! Lembre-se: individualidade é um ato de amor! Portanto, pare de justificar-se: a si mesmo e aos outros, por cuidar tão bem de você!

2. Cuidar de si mesmo é um direito adquirido! Entenda isso, e entenda também que quanto melhor você estiver, mais útil será para os demais.

3. Faça do seu tempo, um tempo seu! Se suas necessidades não forem uma prioridade para você, não serão para mais ninguém.

4. Acolha suas emoções e permita-se sofrer. Não negue uma dor como se, dessa forma, todos os problemas fossem desaparecer. Reprimir a forma como você se sente sobre uma situação serve apenas para retardar sua felicidade.

5. Identifique quais aspectos da sua vida estão causando infelicidade e avalie o quão essenciais eles são para você. Pergunte a si mesmo se isso é realmente importante e se vale o alto preço das consequências negativas. E se necessário, desapegue daquilo que não te faz bem, seja uma profissão, uma amizade ou um relacionamento.

6. Mantenha ao seu redor apenas pessoas que lhe fazem bem. Reconheça e aprecie as pessoas que são positivas e edificantes em sua vida, e demonstre seu compromisso para com elas.

7. Lembre-se que há apenas três coisas na vida que você pode controlar: o que você pensa, o que você diz e o que você faz. As demais, estão completamente fora do seu controle. Assuma isso e aja com consciência. Não se permita controlar pelos outros, não se influencie com a opinião alheia e seja consciente do que você faz e de por que você faz. E se necessário, aprenda a dizer “não”.


Era o defeito nelas que o interessava

Agosto 2, 2018

Texto: Ana Suy

Desde pequeno, na escola, primeiramente se apaixonou pela menina que tirou zero na prova de matemática. Ele, que era o ajudante da professora, passou a auxiliar a garotinha nas operações de dividir. E porque ela aprendia com ele, ele aprendeu a amá-la. Mas quando a menina ficou boa em matemática, o interesse dele por ela, se dissipou.

Depois se apaixonou pela menina de olhos tristes que chegou no meio do bimestre na escola e não conseguia se enturmar. Ele tornou-se uma espécie de guia turístico para a pré-adolescente na escola, situando-a a respeito das histórias de cada pessoa e de cada lugar no colégio. E porque ele fazia os olhos tristes da menina ficarem menos tristes, aprendeu a amá-la. Mas quando a garota tinha meia dúzia de amigos, ela se tornou desinteressante para ele.

Mais tarde se apaixonou pelos caninos superiores encavalados de uma enfermeira, pela crise de rinite da moça do caixa da livraria, pelo luto da moça que tinha acabado de perder um irmão, pela carência da mulher casada cujo marido só sabia viajar a trabalho e esquecera-se dela, pela frustração diante da tela trincada do iphone da mulher com quem esbarrou na rua.

E assim o moço deslizava seu interesse de mulher em mulher, sem conseguir fixar seu desejo por muito mais tempo do que os problemas que essas mulheres tinham. Justificava a evaporação repentina do seu interesse por aquelas moças com teorias a respeito dos amores líquidos, da modernidade e da geração x, y, z, alfa, beta etc.

Até que um dia o homem conheceu uma mulher que lhe despertou um interesse diferente, mas ele não sabia explicar por que era diferente. E não sabendo explicar, mas querendo sempre ter tudo muito explicadinho, achava que a moça tinha um “defeito oculto”. Ele não conseguia destacar se era a diferença de tamanho entre os olhos dela, ou se era a língua levemente presa para falar o “s”, ou se era a vergonha que ela cuspia pelos olhos quando confundia direita com esquerda. E por não saber localizar o “defeito” da moça, foi prestando cada vez mais atenção nela, até que se esqueceu de achar que queria consertar algo nela. Foi assim que, sem saber, ela consertou o defeito dele.


Um não ama por dois

Julho 29, 2018

Texto: Andréa Pachá

– Eu não quero vender a casa nem pra você, nem pra ninguém. A nossa vida tá toda ali dentro. Não cabe em outro lugar, muito menos num apartamento. Eu sei que os meninos cresceram, mas, e no fim de semana, onde é que eles vão dormir? Por mim, moro embaixo da ponte, mas e eles?Você acha justo, por causa desse surto de infantilidade, impor às crianças essas limitações?
– Mas o Junior mora fora, não aparece há mais de ano.
– E daí que o Marquinhos não vem ao Brasil há mais de um ano?! Uma coisa é ele não querer e outra bem diferente é ele não ter um quarto pra ficar. E olha, pode tirar o cavalo da chuva. Só faltava essa. Você é que decide largar sua família depois de quase 30 anos, você que pensa que é um garotinho adolescente irresponsável, você que só quer se livrar dos problemas pra viver com uma ninfetinha, você que quer fazer uma liquidação com tudo o que a gente juntou a vida toda e eu é que sou intransigente e descompensada?!
– Mas você está ficando com quase tudo!
– Não tem compensação, não! A casa de Búzios e o flat do Leblon são meus e só falta você querer bancar o bonzinho dizendo que tá me deixando tudo! Tá deixando porque é meu, porque, quando a gente casou, eu passei mais de cinco anos apertada em um quarto na casa da sua mãe. O que a gente tem, agradeça a mim e se quer mesmo viver sua aventura, me poupa dessas mesquinharias. Vai testar o tamanho do amor da mocinha. Convida ela pra morar na casa dos seus pais!
Na primeira pausa de Regina para respirar, assumi o comando da audiência que começara há pouco mais de quinze minutos e que ameaçava descambar para um descontrole total, caso eu não interviesse naquele momento.
– Calma, pessoal. Vocês não vão conseguir passar a vida a limpo aqui. A audiência é de conciliação e ninguém precisa concordar com nada agora. Só vamos tentar objetivar o que podemos resolver neste momento. Por favor, Regina, toma uma água e respira.
De todas as audiências que presido na Vara de família, a que mais me causa constrangimento, sem dúvida, é uma como essa, na qual uma parte quer o divórcio e a outra resiste à separação.
Por algum desses milagres inexplicáveis da vida, Regina e Marco Antonio se encantaram um pelo outro num determinado momento que podia ser comparável à eternidade. Cultural ou teórico o fenômeno, o fato é que a reação química daquele encontro tirava o sono, acelerava o coração. Acordar e dormir sem o outro do lado era uma dificuldade intransponível. O humor partilhado, os gestos e os olhares subentendidos, as entrelinhas compreensíveis, enfim, tudo conspirava para o desejo do até que a morte nos separe.
Se a vida fosse um conto de fadas, seria possível dizer que viveram felizes por quase trinta anos… só que não é tão simples assim. Eram, sim, felizes a maior parte do tempo. Mas, do mesmo jeito inexplicável com que a paixão se instalara, também foi embora de modo imperceptível, sem deixar rastros ou marcas visíveis. A falta da paixão não era imediatamente sentida porque entravam em campo os projetos, os desejos materiais, o trabalho, os filhos, a infância dos filhos, a adolescência dos filhos, as viagens, os amigos, as preocupações com os filhos, mais trabalho, dinheiro, cansaço, desânimo, afastamento, e, por fim, o silêncio.
Durante todos esses anos, os prazeres e as alegrias da vida foram sendo adiados sempre para depois de algum evento ou alguma data que nunca chegava. Voltariam a conviver com os amigos, caminhariam na praia, viajariam para a Rússia, teriam, ao menos, um final de semana por mês para os passeios de barco, enfim concordaram em viver no futuro do pretérito.
Marquinhos, com 28 anos, mudara-se para Londres, onde trabalhava, e Mariana, aos 25, andava ocupada demais com seu mestrado e seu namorado.
Foi nesse momento que Regina percebeu que era a hora de voltar a protagonizar sua vida. Surpreendia Marco Antonio com jantares, lingeries, recados carinhosos e a resposta vinha seca ou, muitas vezes, nem vinha.
Acostumada, depois de tantos anos, com o temperamento sisudo e introspectivo do marido, só imaginava preocupações com o trabalho ou com os meninos. Jamais lhe passou pela cabeça outra alternativa. Seu marido não era do mesmo padrão que os amigos, sempre envolvidos com outras mulheres. Falavam sobre o assunto e sobre o ridículo da exposição pública de desrespeito ao outro, nessas situações.
No café da manhã de um domingo, Marco Antonio comunicou que estava saindo de casa. Apaixonou-se por outra mulher e não era justo, nem com ele, nem com ela, continuar fingindo. Conversariam com os filhos naquela semana e o resto das suas coisas voltaria para buscar no dia que fosse mais conveniente para ela.
Nenhuma reação de Regina, além do buraco na barriga e o choro que secou durante algumas semanas.
Passado o susto e o primeiro momento de revolta, Regina imaginava que seria possível superar aquela crise. Ela o amava e ele voltaria à razão. Nenhum casamento sólido como o deles poderia acabar dessa forma. Eram maduros e ela, generosa e compreensiva, o perdoaria.
Não foi essa, no entanto, a leitura de Marco Antônio. Três meses depois, apaixonado por outra mulher, precisava ritualizar o fim do casamento e pediu o divórcio. Oferecia uma generosa pensão para a ex-companheira e uma proposta de partilha de bens desigual, pois caberia a ela a maior parte do patrimônio, reflexo provável da culpa que sentia pela responsabilidade de ter desejado o fim.
A resistência de Regina não era razoável, ao menos para as decisões objetivas que deveriam ser tomadas ali. Ora agressiva, ora carinhosa e compreensiva, deixava transparecer que não se conformava com o caminho escolhido pelo companheiro. Ela o amava, sabia que era possível restabelecer o afeto, era capaz de perdoar tudo o que ele a fez passar nesses meses, prometia retomar a relação com mais atenção, mais cuidado. No fundo, assumia a culpa pelo motivo que o levou a precisar de outros abraços.
No início, tranquilo, Marco Antonio recusava todas as propostas de reconciliação. Depois, um desconforto se instalou porque ele desprezava as manifestações da mulher e, por fim, ele falou devagar, baixo, quase num sussurro, olhando no olho dela:
– Eu não quero mais, Regina. Acabou.
Não é fácil se sentir surpreendido com a comunicação de que o jogo acabou. Pelo menos para o time que perplexo, fica no campo. Ainda que o término da partida não venha na sequência de jogadas arriscadas, violentas, passionais e sim na esteira de um empate instalado há tanto tempo que até já se perdeu a percepção de alguma emoção em campo. Ainda assim, o final surpreende.
É como, se de uma hora pra outra, alguém apitasse e, com a bola embaixo do braço, deixasse o campo, sob o olhar incrédulo de quem ainda imaginava que podia permanecer infinitas horas driblando, na sombra, as intempéries de uma peleja previsível e que só acabaria quando um dos dois adversários tombasse em campo.
O jogo termina assim em alguns casamentos, como nesse, de Regina e Marco Antonio. E a responsabilidade pelo fim autoritário de uma relação tem sido objeto de teses, dissertações, tratados, quase uníssonos no diagnóstico de que o amor romântico é uma construção cultural e toda a dor que decorre do seu fim é justificada, compreensível e racionalizada.
Mas, tenta dizer para o parceiro que soube pela boca do outro que o jogo acabou, se ele acredita nas teorias?
Quem ainda pensa que ama, acredita que pode amar pelos dois. Não é assim na matemática improvável do afeto. Para os dois sentados na minha frente, o jogo acabara para ele e não havia nada, nenhum movimento dela capaz de restaurar 30 anos de construção conjunta de vida.
Pedi aos advogados que me deixassem falar, privadamente, com Regina. Juridicamente não tinha muito a esclarecer. Ela sabia das vantagens do acordo e entendia que as suas objeções não tinham relação com as cláusulas propostas. Tive vontade, naquele momento, de tentar ajudar aquela mulher a fortalecer sua autoestima. Não sei se por solidariedade de gênero ou por compreensão daquela dor, tantos os momentos parecidos que já presenciei.
– Pedi para que você ficasse aqui, Regina, porque, depois de mais de quinze anos nessa cadeira, posso te dizer uma coisa que, nesse momento você não vai acreditar, mas tenho certeza que vai lembrar quando for a hora. Isso vai passar.
Prossegui:
– Casamento é bom, quando é bom para os dois. Não dá pra amar por você e por ele e olha, você é uma mulher linda, inteligente, independente e eu não posso permitir que você continue, nessa sala, onde ninguém conhece vocês, se expondo dessa forma. Ele decidiu que quer assim. Você não merece se humilhar dessa maneira. Se, por acaso, algum dia, vocês entenderem que é possível voltar à vida em comum, você precisa estar livre para a decisão. Não precisa assinar nenhum acordo que não queira e o processo vai seguir com a decretação do divórcio. Só pensa se não é melhor você conduzir esse momento e preparar um futuro que você merece.
Reiniciada a audiência, Regina, respirando melhor, concordou com o divórcio. Aceitou a tristeza natural do luto do fim do amor.
Vai passar. Aliás, quando lembro dessa história, tenho certeza de que já passou.


O meu amor

Julho 26, 2018

juntos

Texto: Eduardo Affonso

O meu amor tem silêncios e demoras que me permitem estar sozinho aqui dentro, sabendo que alguém me espera lá fora. O meu amor me aconchega, me estreita, para que a dor passe ao largo, se acaso a solidão comigo se deita. Não me dispara o coração, não me tira o chão, não me arrebata o ar: o meu amor tem o dom de me envolver, me comedir e me serenizar.

É amor de juntar os cacos, cerzir os rasgos, seguir de rastros, lamber feridas. Amor de favas contadas, de meias palavras – mais que de beijos, de mãos dadas – de contas conjuntas e causas perdidas. Amor de lua, com sua luz emprestada; sem aplauso ou holofote, amor de bastidor e de coxia. O meu amor quase não ri, e quando sorri me tira o amargor e o cansaço – amor que é de penumbra e de mormaço, que é de sargaço e calmaria.

O meu amor me acalma quando é pesadelo, me põe a alma nua em pelo ao se entregar a mim assim, de mão beijada. Não pede nada, e nada lhe é negado – o meu amor é campo semeado, é grão colhido, pão assado, mesa posta, fome saciada. O meu amor sonha em  voz baixa, tem a nuca indócil, a saliva doce, o encaixe no desvão das coxas, o pescoço arisco, o colo quente. Não sabe o que é amor, que é o meu amor, e ainda assim me ama, e me enlaça forte mesmo quando ausente.


É PRECISO IR EMBORA

Julho 21, 2018

Texto: Antônia no Divã

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo.

Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua empregada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso. É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália.

Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.