Aproveite!?

Julho 5, 2018

Texto: Ana Suy

Desde criança tenho um incômodo com o quase-sempre-bem-intencionado-conselho “aproveite!”

Me lembro que os adultos me diziam pra aproveitar a infância enquanto podia. Depois os tais adultos me aconselhavam que aproveitasse a adolescência. Depois que eu aproveitasse a viagem que fazia, a juventude, a faculdade, o namoro, o começo do casamento etc etc etc. Na gestação o conselho generalizado era o tal do “aproveite” relacionado a dormir enquanto podia. Agora é o “aproveite enquanto sua filha é bebê” e esse conselho só fica deslizando de uma fase a outra da minha vida, sem jamais desaparecer ou me confortar.

Minha gastura precoce com esse termo, veio da minha questão infantil “como saber que tô aproveitando?” – sim, eu era uma criança que pensava nessas coisas . Por que, oras, como se aproveita uma infância, como se aproveita uma adolescência, uma viagem, noites de sono, um filho, senão vivendo o tempo em que se está?

O que eu sei, e que aprendi com a psicanálise, é que se é a falta que causa o desejo, não se pode desejar aquilo que se tem. Pra não falar em termos “difíceis”, já dizia o pagode popular que é “preciso perder pra aprender a valorizar”. Ou seja, é preciso estar fora da cena para acreditar que é possível aproveitá-la melhor, mas só se pode aproveitar uma experiência dentro da cena.

Me lembro agora do livro “Fundamentos da psicanálise” do Marco Antônio Coutinho Jorge (não lembro se o 1 ou o 2 e também não lembro se a história é exatamente como eu vou contar, porque vou contar “de cabeça” o que ficou pra mim), onde ele diz de uma criança que, vendo sua mãe amamentar seu irmão menor, pede para ser amamentado também. A mãe diz que ele foi amamentado quando pequeno, que já não é mais tempo, ao que ele responde com “mas é que eu não sabia”.

Há uma disjunção entre saber e gozo que nos leva a aproveitar cada tempo à condição de não saber bem ainda o que se vive, coisa que só será ressignificada com a experiência seguinte, que inaugura a perda da experiência anterior. Pra falar um português claro, retomo o pagode psicanalítico “é preciso perder pra aprender a valorizar”. E isso não é da ordem de um sofrimento neurótico, mas é condição pro desejo. Neurótica é a crença de que daria pra aproveitar melhor, se soubéssemos do que não podíamos saber na época. Há que se ter um descolamento da experiência para alcançar um saber. Grudados no tempo presente, o que há, é gozo.

Paradoxalmente, penso que só se pode “aproveitar” o tempo presente sem pensar demasiadamente em como aproveitá-lo. Ou seja, só dá pra “aproveitar” um tempo sem pensar muito em como fazê-lo. Vou “aproveitar” o ensejo, então, e ir lá cheirar (mais, ainda) a minha bebê.

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Separar para não divorciar

Julho 3, 2018

Texto: Vera Iaconelli

A psicanálise tem as melhores e as piores notícias sobre o amor. Os românticos que me desculpem, mas o amor pode ser bem melhor quando encarado sem nenhuma firula. Um amigo dizia: “minha vida já é ótima e junto com minha mulher é excelente. Sem ela, volta a ser ótima”.

A mim soa como uma boa forma de encarar o amor. Um psicanalista seria menos otimista quanto à vida ótima, mas está valendo. Em “A Trégua” (1960), romance de Mario Benedetti, o amor é um oásis efêmero no deserto da vida. Por vezes encontramos esse outro em quem apostamos para tornar a vida menos árida ou, se preferir, excelente.

Na clínica psicanalítica, no entanto, são recorrentes os casais que se odeiam há décadas sem abrir mão do casamento, acusando o parceiro de ter lhes roubado os melhores anos de suas vidas. Alguns seguem o raciocínio de que foram traídos, pois quando casaram a pessoa mostrava-se de um jeito, para depois revelar-se o oposto

Casal de Barueri (SP) decidiu trabalhar em escritórios diferentes para aprender a separar o pessoal do profissional – Renato Stockler – 24.nov.2011/Folhapress
Sentem-se enganados há anos, mas não assumem que reiteram o engano do qual se queixam a cada dia que permanecem casados. Vale a pena reler o conto de Rubem Alves (Retorno e Terno, 1992) no qual ele descreve um diálogo com o Diabo sobre a melhor cola para manter o casamento.

O Diabo argumenta que o ódio é a cola mais potente. Justifica sua tese afirmando que quem odeia não quer ver o outro livre e feliz. Daí a insistência em permanecer infelizes juntos. Já no amor, a separação pode ser mais fácil, pois prioriza-se a felicidade e a liberdade do outro.

A vida de casal pode funcionar como um álibi desconfortável, no qual justificamos o fato de não fazermos o que queremos porque o outro nos impede. Caso estivéssemos sozinhos faríamos tudo e algo mais. Daí a dificuldade de ficar só e ter que assumir que talvez a covardia nos assole. O uso do álibi só não é confortável por que causa ressentimentos e frustrações cada vez maiores conforme os anos avançam.

Nos casais é comum acusarmos o outro de ser ele mesmo! As características de cada um são alçadas a defeitos. O tímido passa a ser acusado de ser tímido e o exuberante de ser exuberante. Quem gosta mais de sexo é tarado/insaciável, quem gosta menos é frígido/impotente. Usamos o outro para afirmar nosso jeito como o jeito certo e, ainda por cima, viver através dele sua vida de tímido ou exuberante, por exemplo.

Uma relação na qual o outro não seja usado como desculpa para nossas escolhas, nem para reafirmar nossa forma de ser, tampouco para reencenar nossas fantasias inconscientes, implica num certo grau de separação. Implica em assumir que não somos capazes de fazer uma pessoa feliz, nem ela terá o poder de nos fazer feliz, ainda que a vida possa ficar bem melhor tendo alguém bacana ao lado.

Muitos casais chegam juntos à análise desejando “ou temendo” que o analista lhes diga quem está certo e quem está errado. Nada mais equivocado do que imaginar vítimas e algozes num casal que se mantém como tal.

Aos poucos, vão percebendo que a melhor forma de permanecer casados é separando as questões de cada um, desenganchando suas fantasias e correndo o risco de estar juntos apesar do ódio, não por causa dele. Correndo o risco porque quando o que une é o amor e não o ódio, como dizia o Diabo, a cola é mais frágil. O filme “Desobediência”, em cartaz, dá uma aula sobre o assunto.

A melhor forma de se divorciar também é aprendendo a se separar. Todos conhecemos casais divorciados há anos que nunca se separam de verdade, permanecendo fiéis ao ex seja na adoração, seja na execração.

Para quem sofre porque acha que o parceiro é a última bolacha do pacote ou a causa de todos os males, a sugestão é simples. Tenha uma vida.


Ideal x Real

Julho 2, 2018

Texto: Isabela Couto

{Pergunta} Como devo me sentir com uma mãe que me chamava de traste?

{Comentário Possível} Entendo que há três pontos bastante relevantes aí. Seu desejo de que isso tudo fosse um cenário diferente, seu desejo de ter razão e seu direito à felicidade.

Primeiro vamos pensar sobre nossos ideais. Ideais são gabaritos cor-de-rosa que vamos construindo dentro da gente. Eles não existem a não ser aí: dentro da gente (algo privado).

Frases do tipo ”bem que poderia ser de outro jeito” expressam bem as imagens internas cor-de-rosa que nos guiam e nos sacam, contudo, da realidade.

Na verdade, a vida adulta vai cortando esse verbos de nosso vocabulário. Queria, Poderia, Seria, Gostaria. Na vida adulta a gente descobre que eles funcionam como entraves. São idealizações que não nos realizam (ideal x real).

Sobre ter razão, percebo assim. Aquele que ainda aos 30, 40 ou 50 anos em diante espera mudar o passado com frases do tipo ”queria que minha mãe não me chamasse assim ou assado” fica com o TRIUNFO, mas perde o SUCESSO (como ensina Bert Hellinger).

A pessoa conserva seu poder de ”eu tenho o direito de pensar o que eu quero sobre ela”, mas isso, na prática, tem péssimos resultados (como podemos perceber nos atendimentos diários). Triunfa-se poderosamente, mas fracassa-se com consistência.

E, por fim, o direito à felicidade.

Conto-de-fadas, certo? Não há isso de ”temos o direito a ser feliz”. Não há essa garantia. Não houve um Sapiens-Mor em algum momento da história humana que nos disse: todos tem o direito a ser feliz.

Não digo que devemos buscar espontaneamente o sofrimento, e nem mesmo deixar de buscar uma vida mais aconchegante. Mas, definitivamente, não é um direito adquirido líquido e certo. É conquista.

A mãe-do-meu-sistema disse que sou um traste (realidade). A mãe-do-meu-sistema não é cor-de-rosa (realidade). A mãe-do-meu-sistema tem seus emaranhados (realidade). Preciso seguir do jeito que me for permitido e como filha-do-meu-sistema (realidade).

Todos estão imersos em seu-sistema. Há limites e chances em cada um deles. Mas o sistema do vizinho é sempre mais verde, certo?

Que tal olharmos só pro nosso?

Essa conexão com o que ”’é”’ e não com o que deveria ser encaminha-nos para o real, para a maturidade, para o MAIS.

Mas só quem experimenta des-triunfar-se é que goza de todas as benesses desse movimento profundo na alma humana.

Experimenta!


Peça única

Maio 22, 2018

Texto: Giovana Bovo Fachini

Existe uma arte japonesa conhecida por “kintsugi” ou “kintsukoroi”, que consiste em reparar objetos de cerâmica quebrados com ouro. Com isso, aquilo que está quebrado não será descartado, além de acabar adquirindo grande valor. Outro ponto é que as criações provenientes desta técnica são sempre peças únicas, já que cada cerâmica se quebra de modo diferente.

Eu percebo uma luta bastante árdua das pessoas consigo próprias tentando anular suas histórias. Tentando modificar quem são. Envergonhando-se de erros. Querendo esquecer partes de suas trajetórias, especialmente daquelas que foram fonte de grande sofrimento. Comparando seus fracassos e suas vitórias com a pessoa do lado, em uma cansativa competição para ver quem se sai melhor na vida.

E aí me vem a imagem das obras japonesas na cabeça. A questão é que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos apagar nosso passado. Não conseguimos disfarçar nossas rachaduras. Inclusive, elas formam quem somos, já que somos soma de sucessos e fracassos. Não dá para ser só sucesso. E a busca incessante por esta felicidade plena traz o oposto disto. Traz infelicidade. Traz um senso de não pertencimento. Não pertencimento a um mundo de redes sociais repletas de viagens, sorrisos, sucesso profissional, amores perfeitos. Como diz Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em seu “Poema em Linha Reta”: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Não é verdade. Todos somos quebrados. Todos rachamos. O que fazemos é tentar juntar os cacos. Juntar os cacos de nossa existência e nos refazermos. Nos reinventarmos. Alguns com mais facilidade. Outros com mais dificuldade. A questão é: qual cola você vai escolher usar para se fazer inteiro novamente? Por que não sair mais bonito disso? Obra de arte! Único!


Ovelha negra

Maio 9, 2018

Texto: Bert Hellinger

As “ovelhas negras” da família.

As chamadas “ovelhas negras” da família são, na verdade, caçadores natos de caminhos de libertação para a árvore genealógica.
Os membros de uma árvore que não se adaptam às normas ou tradições do sistema familiar, aqueles que desde pequenos procuravam constantemente revolucionar as crenças, indo em contravía dos caminhos marcados pelas tradições familiares, aqueles criticados, julgados e mesmo rejeitados, esses, geralmente são os chamados a libertar a árvore de histórias repetitivas que frustram gerações inteiras.

As “ovelhas negras”, as que não se adaptam, as que gritam rebeldia, cumprem um papel básico dentro de cada sistema familiar, elas reparam, apanham e criam o novo e desabrocham ramos na árvore genealógica.

Graças a estes membros, as nossas árvores renovam as suas raízes. Sua rebeldia é terra fértil, sua loucura é água que nutre, sua teimosia é novo ar, sua paixão é fogo que volta a acender o coração dos ancestrais.
Incontáveis desejos reprimidos, sonhos não realizados, talentos frustrados de nossos ancestrais se manifestam na rebeldia dessas ovelhas negras procurando realizar-se. A árvore genealógica, por inércia quererá continuar a manter o curso castrador e tóxico do seu tronco, o que faz a tarefa das nossas ovelhas um trabalho difícil e conflituoso.

No entanto, quem traria novas flores para a nossa árvore se não fosse por elas? Quem criaria novos ramos? Sem elas, os sonhos não realizados daqueles que sustentam a árvore gerações atrás, morreriam enterrados sob as suas próprias raízes.

Que ninguém te faça duvidar, cuida da tua”raridade” como a flor mais preciosa da tua árvore. Tu és o sonho de todos os teus antepassados.


Gratidão

Maio 8, 2018

Texto: Melody Beattie

A gratidão libera a abundância,a plenitude, da vida.
Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela torna a negação em aceitação, caos em ordem, confusão em clareza.
Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo.
Gratidão dá sentido ao nosso passado,traz paz para o hoje,e cria uma visão para o amanhã.


Parabéns Freud!!

Maio 6, 2018

Texto: Ana Suy

Há 162 anos nascia o pai dessa invençãozinha pra lá de genial que mudou o mundo – chamada psicanálise.

A psicanálise é o desejo de Freud. Por isso é dele que se parte para começar a estudar psicanálise, e é a ele que se retorna o tempo todo, para continuar estudando psicanálise. Freud é o começo e é o meio, só não é o fim porque a formação do analista não termina. Um psicanalista se mantém em formação continuamente, é um leitor de Freud no gerúndio.

Freud não só inventou a psicanálise, como também suportou entranhá-la na cultura pagando o preço necessário: sustentou o seu q de subversão.

Por isso ele disse que a psicanálise era uma das 3 feridas narcísicas da humanidade. Atribuiu a primeira a Copérnico, que descobriu que não era a Terra o centro do universo, mas o Sol. A segunda foi marcada por Darwin, que, com a teoria da evolução descobriu que somos apenas uma versão mais desenvolvida dos primatas. E a terceira ferida veio com Freud e a psicanálise, que descobriu que o “eu não é senhor de sua própria casa”.

Esta terceira ferida narcísica está na alma da nossa cultura. Ainda que vivamos em tempos de coachings generalizados, onde tenta-se acreditar que é o consciente quem manda na coisa toda, não há um ser sequer que não reconheça em algum ponto de sua vida a força do inconsciente, considerando uma boa cota de verdade que atravessa um ato falho ou mesmo uma piada. O foi sem- querer, em nossa cultura, é “a-la-chaves”: foi sem querer-querendo.

Assim, desde o nascimento da psicanálise, os críticos anunciam a sua morte. Não sabem que, com isso, declaram a sua própria vida. O próprio Freud nos advertiu disso quando escreveu em 1914, no texto ‘História do movimento psicanalítico’.

“Pelo menos uma dúzia de vezes durante os últimos anos li em relatórios de congressos e de órgãos científicos, ou em resenhas críticas de certas publicações, que agora a psicanálise está morta, derrotada e eliminada de uma vez por todas. A melhor resposta a isso seria nos termos do telegrama de Mark Twain ao jornalista que publicou a notícia falsa de sua morte: “Informação sobre minha morte muito exagerada”. Depois de cada um desses obituários a psicanálise ganhava novos adeptos e colaboradores ou adquiria novos canais de publicidade. Afinal de contas, ser declarado morto é melhor do que ser enterrado em silêncio.”

Viva Freud!