Amor maduro

Janeiro 15, 2018

Texto: Cris Guerra

Se vivem nos dizendo que estar sozinho é importante para se conhecer, a vida a dois pode ser um exercício ainda mais corajoso de autoconhecimento.

Viver sob o mesmo teto é o grande risco de os enamorados se perderem um do outro. Os disfarces caem e os parceiros ficam nus. Hora de experimentar o amor maduro, o amor de verdade. Que começa justamente quando a outra pessoa deixa de ser só um reflexo dos nossos desejos e somos capazes de aceitá-la assim, do jeitinho que ela é – tão diferente das nossas expectativas.

Amar o outro é amar também suas idiossincrasias – aquele conjunto particular de claros e escuros que só uma determinada pessoa tem. Como uma viagem em estrada de terra, com bagagem pesada. Tem montanha, calor, longos trechos a pé sem água pra beber. No meio do caminho, há momentos em que um não consegue enxergar com clareza. Cabe ao outro emprestar seus olhos. É quando o amor nos cuida e nos cura, lembrando-nos de amar a nós mesmos. Vez por outra, esses olhos podem ser mais duros e críticos. É amor também – funcionando como um referencial para sermos melhores na vida.

Casal é uma equipe de dois. Que se revezam na disposição e na lucidez. No instante em que um é incapaz de cuidar, o outro toma para si a parte mais pesada, enquanto o primeiro se recompõe. O nome disso é cumplicidade.

Lutar pelo enamoramento diário é fazer por merecer, a cada dia, um novo voto do outro. Uma espécie de eleição sem cargo garantido, em que estamos constantemente conhecendo (e reconhecendo) o nosso eleitorado. E que alegria diária descobrir que fomos escolhidos de novo.

Nem sempre é fácil ter o outro como espelho, mostrando as nossas imperfeições. É natural preferir seguir sozinho, partir para outra: lavou, tá novo. Em uma nova relação a gente parece voltar a ser zero quilômetro – um jeito de ficar se escondendo de si mesmo.

O amor pede essa calma de insistir. Essa decisão de estar juntos para fazer dar certo. É como mudar de endereço, aquele trabalho braçal que vale o gosto de olhar em torno e ver que tudo ficou do seu jeito. Não é mágica.

Amar é a arte de fazer (e refazer) graciosamente um laço – não um nó. O amor nos pede a escolha: ser do tamanho do medo ou da coragem.

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O teu riso

Janeiro 14, 2018

Texto: Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.


A Oração do Mundo

Janeiro 13, 2018

Texto: Leandro Karnal

O Cristianismo é o Judaísmo com recall da fábrica. Não que a lei mosaica apresentasse um “defeito” que implicasse conserto. Era apenas um detalhe, uma minudência. Os filhos de Abraão tinham metas menos abrangentes: eram povo eleito e não religião universal. Paulo de Tarso fez um delicado ajuste na máquina. Surgia o caráter missionário e universal do Judaísmo turbinado 2.0: o mundo cristão.

O modelo original está presente no adaptado. Há um ponto muito interessante de diálogo no Pai-Nosso, a única oração de fato presente no Novo Testamento. O Magnificat de Maria com a prima Isabel pode ser usado como oração, assim como o poético Nunc Dimittis de Simeão. Porém, o Pai-Nosso é original e único.

Jesus ensinou a oração no contexto do chamado Sermão da Montanha (no Evangelho de Mateus, reaparecendo em Lucas). Logo, faz parte do núcleo duro do Cristianismo e está inserida na passagem mais importante para definir o novo fiel. Os católicos dizem rezar, os evangélicos, orar e os kardecistas preferem a expressão prece. O Pai-Nosso é a reza/oração/prece mais significativa do Ocidente, a mais empregada e um ponto de união com quase todos os adeptos da Boa-Nova. Sendo o Cristianismo a religião mais numerosa do planeta e sendo o Pai-Nosso sua oração principal, devemos supor que seja, numericamente, a mais importante oração da humanidade.

A novidade começa pela expressão Pai. Em aramaico, Jesus usa Abba. É uma intimidade com Deus que deita raízes em Abraão. O diálogo do marido de Sara com o Criador era em tom direto que admitia até negociação. Moisés, de formação principesca e sofisticada, traz a ideia de um Deus de majestade, mais inacessível, atuante com o povo, porém solene e teatral. O Deus mosaico prefere ser visível em epifanias com raios e colunas de fogo. Jesus sai do campo do Altíssimo Adonai/Senhor para o íntimo Abba/Pai. Moisés teve de retirar a sandália para falar com a sarça que ardia. Era um momento dramático. Ao ensinar a oração que analiso, Jesus mandou entrar no quarto e fechar a porta. São duas maneiras de encarar a comunicação com Deus.

O Pai-Nosso apresenta sete pedidos formais (na versão de Mateus). Começa com a invocação do Pai divino, pede que seu nome seja santificado (1), que o Reino venha até nós (2), que Sua vontade prevaleça aqui e no além (3), pede pelo sustento material (4), implora pelo perdão dos pecados (5), reforça o desejo de não cair em tentação (6) e, por fim, elabora o desejo de que o Mal (ou o Tentador) não nos atinja (7). O curioso é que o mesmo Jesus ensinaria a pedir tudo em nome dele ao Pai, mas não usa Seu nome na única oração formal que ensinou.

Nessa oração há uma clássica raiz judaica. Trata-se do princípio da teshuvah, do retorno à graça divina mediante a disposição de agir dentro do certo. Peço que Deus me perdoe, “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Mesmo que, no futuro, a ideia da graça salvífica fosse sendo tornada cada vez mais gratuita e generosa, a base do Evangelho ainda mantém a tradição judaica de pedir perdão a Deus pelos pecados que cometi contra Ele e aos irmãos pelos pecados vividos na minha espécie. Religião muito prática, o Judaísmo implica sempre a necessidade de ação humana para completar a obra divina, da disposição interna em ser justo, de perdoar a cada Yom Kippur (dia do perdão) para estar inscrito no livro da vida no novo ano.

Pequena divergência gramatical. Católicos, tendo usado a Vulgata de São Jerônimo e o latim, registraram o Pai-Nosso com o pronome Vós. “Santificado seja o Vosso nome”, rezam os filhos de Roma. Protestantes históricos foram muito marcados pela tradução luterana direta do grego e invoca que “Teu nome” seja santificado. Também o latim mais literal traduzia dimitte nobis debita nostra por “perdoai as nossas dívidas”. Por vários motivos, a forma mais recente preferiu a também correta “perdoai as nossas ofensas” sem a associação material que a palavra dívida parece carregar. Deus deve me purificar dos pecados e não da Serasa Experian.

Assim, com ligeiras variações linguísticas, o Pai-Nosso é a oração mais repetida no mundo. Parece ter resumido tudo o que um fiel cristão precisa ou quer ver atendido de forma clara e direta. Pode ser pensado palavra a palavra, como um clérigo recomenda a Das Dores no conto Cabelos Compridos (1904) de Monteiro Lobato, ou rezado de “carreirinha”, como geralmente o é. Funciona como ponto de meditação, projeto de vida, mantra pré-lógico e ponto de união de um grupo. Com mãos erguidas ou com dedos entrelaçados em prece, sozinho ou em grupo, antes de refeições ou em meio a angústias, tem a força tradicional de toda identidade cultural. Pai-Nosso pode virar até talismã: gravado seu texto em um círculo, formando uma oração concêntrica com funções de proteção.

Na Igreja do Pai-Nosso (Monte das Oliveiras, Jerusalém) ele está escrito em várias línguas. Cada nacionalidade procura e fotografa no seu idioma. Quase sempre os brasileiros ficam surpresos pela forma arcaica da grafia. Porém, ao encontrá-lo, ilumina-se uma identidade cultural entre as pessoas de mesma língua e mesma fé. Afinal, a principal lição do Pai-Nosso não deriva de ter sete pedidos ou a autoridade absoluta de ter sido ensinado por Jesus. A principal lição do Pai-Nosso está no substantivo e no pronome possessivo iniciais. Ao dizer que há um Pai e que é nosso, reconheço-me no coletivo humano: eis a ideia da fraternidade humana. Ter um mesmo Pai e uma mesma origem deveria ser a grande lição religiosa. Amém. Boa semana pa


O amor

Janeiro 12, 2018

Texto: Osho

Se houver paixão no amor, o amor se tornará o inferno.
Se existir apego no amor,
o amor será uma prisão.
Se o amor não tiver paixão ele se tornará o paraíso.
Se o amor não tiver apego então o amor,
em si mesmo é divino.
O amor tem ambas as possibilidades.
Você pode ter paixão e apego no amor:
então é como se tivesse amarrado uma pedra
ao redor do pescoço do pássaro,
logo ele não pode voar.
Ou como se você tivesse colocado
o pássaro do amor numa gaiola dourada.
Por mais preciosa que a gaiola seja,
ela pode ser enfeitada com diamantes e jóias,
uma gaiola ainda é uma gaiola
e ela destruirá a capacidade do pássaro de voar.
Quando você remove a paixão e o apego do amor,
quando o seu amor é puro, inocente, informal,
quando você dá amor e não pede,
quando o amor é somente uma doação,
quando o amor é um imperador,
não um mendigo;
quando você fica feliz porque alguém aceitou o seu amor
e você não negocia o amor,
não pede nada em troca,
você está liberando o pássaro do amor para o céu aberto:
está fortalecendo as asas dele.
E este pássaro pode seguir na jornada para o infinito.
O amor tem feito pessoas caírem
e também tem feito pessoas elevarem-se.
Depende do que você tem feito com o amor.
O amor é um fenômeno muito misterioso.
É uma porta,
de um lado está o sofrimento,
do outro lado está o êxtase;
de um lado está o inferno,
do outro lado o paraíso;
de um lado o sansara, a roda da vida e da morte,
do outro lado está a liberação.
O amor é uma porta.


Conselhos de vida

Janeiro 11, 2018

Texto: Revista Prosa, Verso e Arte

Holly Butcher, uma australiana de 27 anos, deixou uma lição de vida durante seu tratamento contra o câncer. A jovem morreu na quinta-feira (4), conforme informaram seus familiares através de post no Facebook. Na mesma rede social, eles também publicaram uma carta deixada por ela e compartilharam alguns de seus conselhos de vida.

“É uma coisa estranha perceber e aceitar a sua mortalidade aos 26 anos de idade. Isso é apenas algumas dessas coisas que você ignora. Os dias vão passando e você apenas espera que eles continuem vindo. Até que o inesperado aconteça. Eu sempre me imaginei envelhecendo e ficando com rugas – muito provavelmente causadas por minha linda família (cheia de crianças). Eu planejava construir isso com o amor da minha vida”, começou Holly.

“Esta é uma coisa da vida; é frágil, preciosa e imprevisível. E cada dia é um presente, não um direito dado. Eu tenho 27 anos agora. Não quero ir. Eu amo a minha vida. Estou feliz.. Devo isso aos meus entes queridos. Mas o controlo está fora das minhas mãos”, seguiu a australiana, que iniciou uma lista de conselhos.

“Só quero que as pessoas parem de se preocupar tanto com as coisas pequenas e as tensões insignificantes na vida e tentem lembrar-se que todos nós temos o mesmo destino depois disso tudo. Então, faça o que puder para que seu tempo seja incrível, sem besteiras. Nesses momentos que você estiver lamentando por coisas ridículas, apenas pense que alguém está realmente enfrentando um problema. Seja grato pelo seu pequeno problema. Não faz mal reconhecer que algo é irritante, mas tente não continuar a carregar isso e afetar negativamente o dia de outras pessoas”, afirmou Holly

Ela ainda aconselhou para esses momentos sair, respirar ar fresco para ganhar fôlego. “Veja como o céu é azul e como as árvores são verdes; é tão lindo. Pense como você é sortudo por poder fazer isso: respirar”.

Holly aconselhou as pessoas a pararem de se preocupar com o trânsito, o corte de cabelo ou com a celulite… “É tudo tão insignificante quando se olha para a vida como um todo. Estou vendo meu corpo desaparecendo diante dos meus olhos e não há nada que eu possa fazer. E tudo o que desejo agora é que eu pudesse ter mais um aniversário ou natal com a minha família, ou apenas mais um dia com o meu parceiro e o meu cão”.

A australiana ainda destacou que é preciso não ficar obcecado com a forma física. “Lembre-se que há mais aspectos para a saúde do que o corpo físico”.

“Dê, dê, dê. É verdade que você ganha mais felicidade fazendo coisas para outros do que para si mesmo. Gostaria de ter feito mais isso”, escreveu Holly, que ainda falou sobre a importância de deixar de gastar dinheiro com aquisições materiais.

“Compre algo para seu amigo em vez de outro vestido. Leve-os para uma refeição, ou melhor ainda, prepara-lhes uma refeição. Dê para eles uma planta, uma massagem ou uma vela e diga quanto os ama. Use seu dinheiro em experiências. Ou ao menos não perca experiências porque gastou todo o dinheiro com coisas materiais”.

Holly termina a carta aconselhando as pessoas a fazerem boas ações para a humanidade: “Comece doando sangue”.

“Doações de sangue (mais bolsas que eu poderia contar) me ajudaram a me manter viva por mais um ano. Um ano que eu serei eternamente grata, que eu passei aqui na terra com minha família, amigos e cachorro. Um ano em que eu tive alguns dos melhores momentos da minha vida”.


Meditação para 2018

Janeiro 10, 2018

Texto: Autoria desconhecida
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Eu liberto meus pais do sentimento de que já falharam comigo.
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Eu liberto meus filhos ou futuro filhos, da necessidade de trazerem orgulho para mim; que possam escrever seus próprios caminhos de acordo com seus corações, que sussurram o tempo todo em seus ouvidos.
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Eu liberto meu parceiro da obrigação de me completar. Não me falta nada, aprendo com todo o ser o tempo todo.
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Agradeço aos meus avós e antepassados que se reuniram para que hoje eu respire a vida. Libero-os das falhas do passado e dos desejos que não cumpriram, conscientes de que fizeram o melhor que puderam para resolver suas situações dentro da consciência que tinham naquele momento. Eu os honro, os amo e reconheço inocentes.
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Eu me desnudo diante de seus olhos, por isso eles sabem que eu não escondo nem devo nada além de ser fiel a mim mesmo e à minha própria existência, que caminhando com a sabedoria do coração, estou ciente de que cumpro o meu projeto de vida, livre de lealdades familiares invisíveis e visíveis que possam perturbar minha Paz e Felicidade, que são minhas únicas responsabilidades.
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Eu renuncio ao papel de salvadora, de ser aquela que une ou cumpre as expectativas dos outros.
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Aprendendo através, e somente através, do AMOR, eu abençoo minha essência, minha maneira de expressar, mesmo que alguém possa não me entender.
Eu entendo a mim mesma, porque só eu vivi e experimentei minha história; porque me conheço, sei quem sou, o que eu sinto, o que eu faço e por que faço.
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Me respeito e me aprovo.
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Eu honro a Divindade em mim e em você…


A verdade em nossos passos

Janeiro 9, 2018

Texto: Mô Amorim

Não adianta se iludir: o caminho só existe quando a gente caminha por dentro. Se assim não for, serão só voltas ao redor daquilo que você deixou lá atrás. Você pode até mudar de casa, de roupa, de estilo e projetos. Mas se os seus pés internos ficarem no passado, desculpa, a vida não vai deslanchar. Você pode até construir algo concreto e grande, bonito de se ver e de se mostrar – aos outros, mas isso também é ilusão. Não precisamos mostrar nada a ninguém. Não precisamos de aprovação. E isso é tão libertador, acredite.

O caminho não é só feito de ação desenfreada. O caminho também é feito de paradas. Assim é a vida, que precisa de pausas. Às vezes, o caminho não é seguir, é parar. Paradoxalmente, parar. Parar de correr, parar de querer provar pra todos que estamos bem. Simplesmente parar. Eu acredito que quando paramos, Deus se senta ali conosco à beira do caminho. Ele não nos deixa. Ele é o caminho. E a vida não é nenhuma calculadora onde computamos os caminhos percorridos, as vantagens que levamos, os ganhos… Nada disso! Aliás, é exatamente nas perdas que ”ganhamos”. Ganhamos a lição. Muitas vezes, o doloroso aprendizado de tentar fazer diferente da próxima vez. Mas só é possível aprender quando damos essa paradinha.

Sim, o mundo, o tempo todo, está querendo nos empurrar para uma corrida imaginária e alucinada. Interrompa. Você não precisa. Ninguém precisa seguir no ritmo dos outros. Não é a velocidade que vai determinar a qualidade de nossas vidas, é a verdade dos nossos passos. É a intenção deles. Se você tentou e não deu, procure aprender outro jeito de caminhar. Por isso, não se esqueça: o caminhar verdadeiro exige paradas também. Aceite. E são nessas pausas, que entendemos a importância da renúncia das paisagens apreciadas, das paragens demoradas, das histórias interrompidas. Não adianta se enganar, porque lá na frente, você vai perceber que só deu voltas em torno do mesmo lugar que você nunca quis deixar.