Overload de informação

Novembro 18, 2017

chuva

Texto: Gustavo Tanaka

Quando você usa demais seu celular, armazena muita informação. Muita conversa guardada. Muitas fotos. Muita memória utilizada.

Aí você precisa descarregar e liberar espaço.

Deletar arquivos, esvaziar a lixeira, jogar num HD externo, ou na nuvem.

E é isso que precisamos fazer de vez em quando.

Deletar o que não serve mais e jogar nossos arquivos e memórias na nuvem. Nos esvaziar.

Quando você esvazia seu celular, ele fica rápido, eficiente, excelente de usar.

Quando você se esvazia, você fica mais leve, mais ágil e com clareza de pensamento.

Como se esvazia?
Jogue fora o que não serve mais.
Delete emails ou marque tudo como lido
Doe roupas que você não usa.
Medite.
Tire um dia para não fazer nada.
Fique um tempo sem ler e sem buscar conhecimento.
Durma muito.
Escreva. Escreva muito. Escreva sem saber o que está escrevendo.
Desenhe, pinte e faça escultura.
Dance e cante dançando.

Tire tudo de dentro de você. Jogue na nuvem. Deixe o vento levar.
Esvazie-se.

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Pedaços

Novembro 15, 2017

Texto: Ana Suy

Os olhos da vítima abrem-se repentinamente. Me assusto, não pelo abrir dos olhos, mas pela velocidade com o qual eles se abriram. Não houve movimento, em uma cena eles estavam fechados, em outra eles estavam completamente abertos. Faz mesmo um tempo que eu perdi a noção de movimento das coisas entre nós. Me lembro bem de como nosso apaixonamento foi um movimento. Um flerte, uma espera, uma conversa, uma espera, um olhar, um frio na barriga, um beijo, uma palavra, esperas e esperas, tudo se m o v i m e n t a v a l e n t a m e n t e.

Mas desde que as coisas começaram a ruir, elas simplesmente ruíram. Não quebraram aos poucos, quebraram de repente. De um instante para o outro ele não era mais o mesmo, o movimento entre nós deixou de existir, a passagem do tempo, que antes causava desejo, passou a se resumir em pura angústia.

Uma boca solta um grito. Me assusto mais uma vez. Não com o grito, mas com a boca. Uma boca, deslocada de um corpo, uma boca voadora no espaço, desprendida de uma existência que lhe dê sentido – se aproxima do meu ouvido e grita. Me arrepio. O que faz aquela boca voadora naquela cena sem movimento? Já não bastava o meu coração ter desprendido do meu corpo no exato momento em que deixei de ser amada? Já não era o suficiente que o meu coração andasse errante por aí, e que eu tivesse no lugar dele, um vazio ardido e fúcsia? Teria também a minha boca, agora, se descolado do meu corpo? Era eu que gritava, fora de mim, sem me saber? Será que todos os órgãos do meu corpo iam me abandonar, um a um, tal como ele o fez, ignorando que eu o sentia como um órgão meu? Naquele momento eu entendi que estava destinada ao pior tipo de solidão, à solidão de mim mesma. Desde o momento em que ele me abandonara, eu mesma passara a me abandonar também.

Algo pinga no sapato. Mais um susto. Não pelo sapato e nem pela coisa que pingava, mas por me reconhecer de novo fora de mim. O sapato, oxford creme, minha mais recente aquisição na tentativa de me restituir algum amor próprio, também me abandonara, junto com meu pé direito. Eram lágrimas que pingavam nele, lágrimas que meus olhos, também fora de mim, choravam. Lágrimas que a minha ex boca, correndo no ar, se antecipou recebendo o cair de algumas gotas, e as sentiu salgadas.

Ao sentir o gosto de mar, que saía da ex eu, na boca fora da mim, entendi: a vítima era eu mesma. Não podendo me separar dele, tornei-me eu mesma, ele. E agora, para livrar-me dele, precisava me descompor. Sobreviverei?


SUA MISSÃO NÃO É TÃO GRANDE ASSIM

Novembro 9, 2017

Texto: Gustavo Tanaka

O que aconteceria se eu morresse hoje?

Às vezes eu travo na hora de fazer uma escolha.

Quando tenho que tomar uma decisão, ou escolher o próximo passo, eu fico na dúvida.

Começo a ficar preocupado com uma escolha errada.

Em me arrepender. Em fazer errado. Em tomar a direção incorreta.

Sinto que posso decepcionar muitas pessoas, que posso ser cobrado, que posso não cumprir minha missão aqui no planeta terra. Que posso falhar.

Então um dia desses comecei a pensar: O que aconteceria se eu morresse hoje?

Bom, se eu morresse hoje, provavelmente algumas pessoas ficariam tristes. Meus familiares e amigos mais próximos iriam sofrer um pouco.

Mas eles iriam seguir suas vidas.

Aquelas pessoas que de alguma maneira dependem de algo meu, iriam aprender a viver sem mim. Iriam substituir minha companhia pela de outras pessoas. Aqueles que me acompanham na internet iriam acompanhar outras pessoas. E a Terra continuaria sendo o mesmo lugar que é hoje.

A grande verdade é que não mudaria nada.

A vida segue independente de mim. Minha existência só é importante de verdade para mim mesmo.

Para os outros, eu sou apenas um coadjuvante em seus próprios filmes.

E num filme, quando um coadjuvante morre, não acontece nada. O filme continua. A jornada continua, a história continua.

Enquanto pensava isso, sentia um misto de espanto, por perceber que eu não sou tão importante assim, com uma leveza incrível.

Se eu não sou tão importante assim pro planeta, não preciso fazer coisas gigantes. Não preciso ajudar um bilhão de pessoas. Não preciso mudar o planeta.

E a minha missão, deixa de ter peso.

Aí eu percebo que eu posso fazer qualquer coisa. Tanto faz.

Minha missão nesse planeta nem é tão grande assim.

Assim como a sua também não é.

E se a vida vai continuar se eu morrer hoje. Se o planeta vai continuar existindo. Se as pessoas vão seguir suas vidas e preencher o vazio que eu posso deixar, eu só tenho um desafio: Ser eu mesmo.

E isso já é um baita desafio.

Ser eu mesmo é ser radicalmente verdadeiro comigo mesmo. Com meus sonhos. Com minhas vontades. Com aquilo que minha alma anseia por fazer aqui. Seguir minha alegria. Me divertir com tudo isso.

Essa é a minha missão.

E se eu fizer isso de verdade, talvez minha passagem por aqui não tenha sido em vão. Mesmo não tendo ajudado um bilhão de pessoas. Mesmo não tendo ganhado milhões de dólares. Mesmo não tendo conseguido salvar a Amazônia. Mesmo não tendo conseguido acabar com a corrupção. Mesmo não tendo conseguido mudar o sistema.

Tire o peso da sua missão. Ela não é tão grande assim. Pare de pensar nela por uns instantes.

Encare o único desafio que você tem. Ser você mesmo.


Se sua mãe…

Novembro 8, 2017

Texto: Maureen Murdock

“Se sua mãe nunca te consolou, provavelmente será difícil que encontre um verdadeiro consolo para o coração nas relações que estabeleças com outras pessoas. Teu trabalho será criar esse sentido de consolo para o coração dentro de si mesma.
Se sua mãe nunca se compadeceu de você, provavelmente terá pouca paciência com suas próprias falhas, assim como com as dos outros. Teu trabalho será observar a alguém que pratique a compaixão, e praticá-la você própria.
Se sua mãe silenciava sua própria criatividade, seu trabalho será dar voz a cada impulso criativo que se apresente. Pinta, escreve poesia, toca o tambor, cuida das plantas, cozinha e dança.
Se sua mãe desprezava ou rejeitava seu próprio corpo como mulher, seu trabalho é abraçar e honrar o teu corpo e a tua sexualidade.
Se se sentia abandonada por tua mãe pela razão que fosse, seu trabalho será escutar a teus próprios sentimentos e nunca abandonar a si mesma.
Para que possamos curar a profunda ferida da nossa natureza feminina, é importante que você aceite a sua mãe, compreendendo que talvez ela também tenha recebido pouco… e que você mesma se torne uma boa mãe – assumindo a tarefa de ser maternal consigo.”


É você

Novembro 5, 2017

Texto: Gustavo Tanaka

Você morreu.

Ontem.

Você acordou.

Hoje.

E é outra pessoa.

Com novos sonhos. Com novas vontades.

A realidade que se manifesta à sua frente hoje não é mais a mesma de ontem.

Pare de tentar recriar o passado.

Pare de tentar viver novamente o que você viveu ontem.

Observe o que está acontencendo hoje. Dentro e fora de você.

Qual é a temperatura hoje? Qual é a lua hoje? Quais são suas vontades de hoje?

Quem é você hoje?

Não são os outros que vão te dizer.

É você.


Mal-estar

Outubro 23, 2017

Texto: Ana Suy

Estranho seria se eu ainda estivesse apaixonada por você. Eu queria que só os nossos all stares combinassem, e não que os mal-estares combinassem também. Eu queria que a sua loucura combinasse um pouco com a minha (só um pouco), como canta a Clarice Falcão, e não que combinasse tanto. Eu queria que a parte mais obscura de você não me seduzisse tanto. Eu queria que eu pudesse reconhecer em mim que a sua podridão me seduz, e não que eu só soubesse sentir repulsa pelo meu próprio desejo. Eu queria não querer tanto e também queria que escrever não doesse. Eu queria que fosse a escrita que doesse e não aquilo que me impulsiona a mover a caneta no papel e os dedos no teclado. Eu queria ter te conhecido hoje e queria que comer chocolate de guarda-chuvinha ainda fosse gostoso. Eu queria parar de evitar a vida e queria saber dormir de maquiagem e acordar sem peso na consciência. Eu queria ser esperançosa como sempre tinha sido até me desapaixonar por você e queria nunca ter começado a jogar candy crush. Eu queria não emagrecer só quando entristeço e queria um all star rosa de verniz como o que eu tinha quando era criança. Não, o que eu quero mesmo é um mal-estar cor-de-rosa. Peraí, ele é. Ó, céus, até quando vou querer coisas que já tenho ou que já tive? Quero querer coisas novas. Estou cansada de desejos repetidos. Estranho seria se eu acreditasse no que escrevo.


GERAÇÃO PRINT SCREEN

Outubro 11, 2017

Texto: Ana Suy

GERAÇÃO PRINT SCREEN

Cada vez mais nossa vida tem passado menos pela linguagem. Há menos de dez anos, contávamos para as pessoas das cartas que recebíamos, dos emails que líamos, do que vimos na Barsa, na viagem do ano passado, no jornal da manhã.

Com a participação da tecnologia, cada vez mais ativa em nossa vida, temos falado pouco dos nossos acontecimentos, e mostrado muito.

Fotos, prints, informações, tudo online. Uma amiga já não conta para outra do fora que recebeu, então se queixa de que sempre é assim, aproveita e faz uma piada que a deixa menos triste. Um amigo já não diz para o outro do quão bonita é a moça com quem ele está saindo, mas mostra a foto, aproveita e já descobre que têm amigos em comum e ouve duas ou três histórias sobre o passado dela, que acabam com a fantasia dele. Alguém que começa uma análise, de imediato, não reflete mais sobre os equívocos da linguagem, mas oferece o celular ao(à) analista, para que ele(a) leia e conclua: “estou certo(a) ou errado(a)?”

Há pouquíssimo tempo, mandávamos um email (nem precisamos voltar para o tempo das cartas) e era preciso esperar um, dois ou três dias para que a pessoa o respondesse. Era preciso um computador, era preciso conexão com a internet, e também, disposição.

Atualmente, estamos submetidos ao imperativo do coelho-da-Alice-no-país-das-maravilhas: “estamos atrasados, corram!”

Assim, temos nos fixado no campo da imagem, no reino da visão, onde os print screens reinam e a angústia número um é ficar sem conexão. “Ficar sem resposta” (que não é necessariamente ficar sem resposta, mas é não ter resposta imediata), é vivido como o fim do mundo. Mensagem do whatsapp com dois tracinhos em azul, acompanhado de silêncio? Já se nomeia de “vácuo”, antecipadamente. Pouco importa se fulano ou fulana está na aula, no banheiro, em uma reunião, ou se está pensando no que responder.

Nossa contemporaneidade é um prato cheio para a vertente feminina do amor, que Lacan nomeia como erotomaníaca: “não me respondeu na hora? não me ama, está com outro(a)”! E dá-lhe angústia!

Viver desse modo é desarticular a falta da nossa existência. Por outra via, a psicanálise nos ensina que o desejo é o melhor remédio para a angústia.

“O melhor de uma viagem é esperar por ela”, “é bom viajar, mas é melhor voltar pra casa”, “o melhor do amor é a conquista”, “reservemos as melhores coisas para o final de semana”, são ditos populares que marcam a importância do desejo.

É preciso que a gente suporte a espera, é preciso que a gente aprenda a desejar. É tããão necessário sentir o frio na barriga que antecede à espera de uma resposta… é importante não conseguir dormir porque se está num estado de ansiedade, que não se equivalha à angústia! Além do mais, tanta pressa, para que? Se acelerarmos demasiadamente a vida, será a morte que vamos encontrar.

Não podemos controlar tudo na vida – e esta é a melhor coisa dela.