Óperas na madrugada

Setembro 8, 2016

coragem

Texto:  Mo Amorim

eu não ligo pra número do mesmo jeito que ligo pra estrelas. eu prefiro sempre as estrelas, o sonho à lucidez. não dá pra negar que ainda me sinto uma menina de dezessete: viva e fresca por dentro, nos sonhos e nas minhas verdades. talvez exista mais motivos para Mercedes Sosa ter cantado tantas vezes ”volver a los 17” em shows para velhos incríveis… cabe confessar que não ligo para o fato da vida não ser assim tão emocionante quando esperamos que ela seja o máximo. e não há atalhos para a felicidade. é preciso atravessar cada porta, uma de cada vez. descascar as cascas que nos puseram. e mesmo que não queiramos, algumas situações nos expulsam. a única coisa de honesto que posso fazer é atravessar o caminho sob meus pés. e só quando eu piso é que ele se faz. gosto de ouvir óperas enquanto a madrugada me abraça, calma, gelada e perfeita. e só quem ama madrugadas pode entender o que digo agora. eu respiro fundo quando vejo uma cena bela, respiro pra não desidratar, porque tudo me emociona. assim como um beijo bem dado e demorado. assim como uma declaração de amor sob o luar. e pra terminar, eu admito que tenho feito planos, porque todo ferrado, você sabe, meu amor, precisa de um. sim, eu preciso ser justa comigo e me cuidar.


Do que morrem os relacionamentos?

Setembro 4, 2016

desencontrosTexto: Ricardo Coiro

Do que morrem os relacionamentos? Hein?
Morrem de falta de tesão? Com certeza.
Morrem de excesso de ciúme? É claro.
Morrem soterrados pelo comodismo? Todos os dias.
Morrem por causa de fios de cabelo encontrados em paletós? Sem dúvida.
Mas os relacionamentos morrem, principalmente, porque permitimos que a nossa vaidade nos transforme em pessoas incapazes de evitar pequenos atritos e de tolerar minúsculos deslizes.
Ao contrário do que você pensa, irmão, a maioria dos relacionamentos não vai a óbito por causa da descoberta de amantes ou devido à ocorrência de grandes tragédias: a morte de uma relação, geralmente, é consequência direta do desgaste gerado por pequenos – mas muito frequentes! – arranhões.
Não entendeu? Serei mais claro: a expressão “Não enche o meu saco!”, por exemplo, quando desferida apenas uma vez, não nos parece muito nociva a uma relação. Certo? Agora pense no poder destrutivo que a mesma expressão adquire quando repetida mais de vinte vezes. Pensou? Agora some isso a outras atitudes estúpidas recorrentes e, sem dúvida, terá a receita perfeita para a corrosão de um laço.
Não só isso: envenenamos as nossas relações aos poucos, em doses homeopáticas, com a ajuda dos microscópicos sapos que insistimos em não engolir, “De jeito nenhum!”, “Nem morto!”, “Nem fodendo!”. E sabe por que não engolimos? Por causa do nosso orgulho, cara. Só por isso! Somos demasiadamente orgulhosos para notar que, a cada vez em que nos esforçamos para transformar esbarrões em guerras, mais uma gota de sangue drenamos da relação. E assim – de picuinha em picuinha, de pelo em ovo em pelo em ovo, de grito em grito, de acusação em acusação e de aspereza em aspereza – vamos minando as chances de as nossas relações darem certo, sobreviverem a nossos braços intorcíveis.
Matamos os nossos relacionamentos com o auxílio das inúmeras miudezas que, em vez de simplesmente deixarmos “pra lá” – e fingirmos que nunca aconteceram! -, afiamos até que se tornem um argumento para ofensas cortantes e uma justificativa que nos iluda a ponto de acharmos que temos o direito de elevar o tom de voz.
O que eu sugiro? Sugiro que faça mais vista grossa, que deixe mais escorregões “pra lá”, que seja mais tolerante em relação aos defeitos dela, que controle essa sua vontade de provar que você está sempre certo e que não se esqueça de que mesmo um perdão pedido de joelhos, muitas vezes, é incapaz de apagar da memória as palavras ditas sem pensar. Sacou? Não, meu caro, isso não é fazer papel de otário. Pelo contrário, irmão, pois aprender a domar o ego em prol da sobrevivência de uma relação, com certeza, é uma das atitudes mais inteligentes que conheço.


Inteligência e relações interpessoais

Setembro 2, 2016

Tolerância

Texto: Dani Marino

Até os anos 80 o Q.I. era um dos elementos mais importantes a serem considerados para admissão em escolas e no mercado de trabalho. Testes e mais testes indicavam um número que determinava sua capacidade de apreensão de conteúdos.
A partir dos anos 90, Daniel Gooleman sugeriu que de nada adiantava um QI alto se a pessoa não possuía inteligência emocional (Q.E.). A Inteligência emocional indica nossa capacidade de interagir socialmente e lidar com conflitos interpessoais. Essa habilidade passou a ser o elemento de classificação em vagas de emprego, analisada a partir de testes bem específicos que demonstram como o indivíduo é capaz de enfrentar situações adversas sem criar desconforto ou problemas entre os colegas.
Recentemente conheci o conceito de inteligência cultural, ou seja, a capacidade do indivíduo de interagir e lidar com as culturas diferentes presentes em um mesmo ambiente.
Embora esses conceitos tenham sido mais amplamente difundidos entre gestores e empresários, eles podem facilmente ser aplicados na vida cotidiana.
Infelizmente, não somos educados para uma convivência que priorize a cooperação, o que é ridículo se considerarmos o fato que vivemos em sociedade. Uma educação pautada na ascenção individual, onde sucesso está associado ao acúmulo de bens, não favorece uma convivência harmoniosa. Pessoas que não conseguem enxergar além do próprio umbigo, que não entendem que conviver implica fazer concessões, estão fadadas ao ostracismo, pois o mundo não comporta mais atitudes egoístas. Um futuro sustentável depende das pessoas desenvolverem suas inteligências, todas elas. Não adianta ser o supra sumo do que quer que seja se não consegue manter uma relação saudável com quem o cerca e isso implica aprender a ser cordial e deixar de achar que os outros lhe devem algo.
Portanto, o que define o sucesso dentro dessa lógica é certamente manutenção de um network, pois é isso que indica a capacidade de alguém de lidar com adversidades em ambientes diferentes. Isso porque habilidade técnica e conhecimento podem ser adquiridos com estudo, já as outras inteligências costumam ser inerentes a certos indivíduos ou no mínimo, levam muito mais tempo para serem desenvolvidas.
Não à toa, certas empresas só contratam novos funcionários dependendo do resultado que ele tiver nos testes de personalidade (P.I. e L.I) ou depois de longas dinâmicas de grupo com psicólogos.
Pessoas e empresas perdem contratos por não conseguirem se alinhar à nova demanda nas formas de se relacionar, então, se vc é uma pessoa com dificuldades em se adaptar e cujos valores são muito rígidos, nada flexíveis, sugiro que reveja seus posicionamentos e olhe ao redor. O mundo está mudando. Ou nos adaptamos, ou naufragamos sozinhos com nossas convicções.


Não sabemos discordar

Setembro 1, 2016

Texto: Wagner Brenner

“Triste fato: não sabemos discordar. Um saco. Estamos no prézinho da discordância.

Diariamente perdemos conteúdo inteligente de pessoas que simplesmente desistem de escrever e opinar, por causa dos comentários grosseiros.

Engraçada essa interpretação errada de que os bate-bocas nas redes (geralmente no Facebook né?) acontecem por causa de posições contrárias, quando na verdade é pela maneira como as pessoas escrevem. O problema não é o preto ou o branco. É o cinza. A incompatibilidade intrínseca entre as ideias está ficando em segundo plano, escondidas na falta de habilidade das pessoas na hora de defender posições contrárias.

huge.15.77039-1dica #1: cutuque o balão, não o olho do cara

A discordância, que deveria ser reverenciada como A grande aliada na formação de opinião, é diariamente consumida em chamas. Minha mãe ensinou que quando a gente perde a linha, perde também a razão. Em outras palavras, se alguém resolver falar que o sol gira em torno da terra e você chamá-la de imbecil, você (1) perdeu a chance de esclarecer alguém (quem é que pára para pensar diante de um insulto?) e (2) perdeu a chance de ficar calado, porque sua grosseria vai ficar alí exposta por muitos e muitos anos. Para os seus filhos, por exemplo, que um dia podem ter curiosidade de dar uma Googada no seu nome para ver o que/e como seu pai/mãe escreviam.

Saber discordar não é fácil. Não é MESMO. Dá trabalho, precisa raciocinar MUITO para organizar e embalar as ideias de um jeito claro. É uma habilidade e requer aprendizado e prática. A gente sabe que para construir uma ponte é preciso estudar anos de matemática, mas acha que para construir argumentos é só sair falando. Esse ping-pong filosófico é racional por natureza. A emoção deve ser usada com parcimônia, apenas para temperar. Pode sim vir com uma pitada de indignação, mas no mesmo instante que você passa do limite e “apela”, toda a sua argumentação desmorona.

Você deve concordar com tudo? Pelo amor de Deus, não.

Você deve virar uma lady diante de alguém com outra opinião e muitas vezes sem educação? Não! Siga com valentia, mas use a inteligência para se defender.

Um truque bom é lembrar que a intenção desse embate é desafiar os argumentos para descobrir o que pára em pé. Você desafia um raciocínio, não um oponente.

Se pretendemos nos vangloriar dos tempos modernos em que vivemos e do privilégio do livre trânsito de ideias, tá na hora de aprender a se manifestar do jeito certo, em benefício de todos e não por um prazer individual e narcisista de querer ter razão para posar de incrível. Seja incrível educando, compartilhando, fazendo pensar.

 

E, por favor, não seja um escroto. Porque quando aparece um grosseirão nos comentários só fica uma certeza: a da falta de educação, em TODOS os sentidos. Apelou é porque não tem repertório para discordar (o que também não é problema nenhum, eu não tenho repertório para discordar da maioria das coisas), mas enquanto amadurece suas ideias, não fique roubando o tempo dos outros com cobrinhas, pregos e raios porque isso não tem efeito prático nenhum e ainda deixa algo de ruim no ar. É um pum mental.

Quer discordar? Respira fundo, se acalma (sei que é difícil, mas vale a pena), desenvolva um argumento e aí sim compartilhe. Se for uma dúvida, compartilhe a dúvida, não uma certeza.

A coisa ficou pessoal? Mude para o modo email e poupe o resto do mundo do seu mimimi.”


Última temporada do medo

Agosto 29, 2016

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Texto: Ita Portugal

“Tenho medo. Tenho medo da acidez humana, que desacredita na bondade. Medo de quem duvida dos sentimentos mais simples e procura assim complicar a vida com uma coleção de teorias vazias e obsoletas.
Medo das pessoas que mastigam silenciosamente sua ira, enquanto olham com reprovação para os sonhos dos outros. Das mãos fechadas por avareza, e que desaprenderam a beleza da carícia. De ser tomada pelas dúvidas de quem fica sentado no caminho esperando a vida acontecer. De quem não comete erros, não corre riscos, não possui a ousadia dos dias coloridos que insistem em exagerar.
Tenho medo daqueles que se calam porque não sabem argumentar. Da grandeza do homem que insiste em diminuir todos os outros. Dos que escolhem pelo que agrada ao olho em oposição ao que a alma sente.
Tenho medo, muito medo de quem faz guerra por pouco e barulho pelos hiatos transitórios que só duram uma chuva. Dos que vão embora sem a decência de se despedir. Medo de quem muito sabe e pouco ensina. Dos que fazem a vida doer, encher de dúvidas, tornar-se um bocado de confusões. Dos que deixam ir tudo pelo ralo, pela distração ou indiferença. Das alegrias superficiais e opacas. De quem enterra as mágoas com receio de se perdoar. Das invasões de privacidade em nome de dois sentimentos imperfeitos chamados ciúme e insegurança. Tenho medo do sofrimento desnecessário, da falta de paciência, das lembranças doloridas, das esperanças amareladas.
Tenho medo de quem muito fala e não tem tempo para escutar. De quem oferece conselhos e depois abandona o processo de cura do outro. Medo daqueles que conseguem carregar o outro no peito, mas abandonam a alma na primeira valeta. De quem fala pela metade e esconde o principal.
Dos que, com medo dos sentimentos mais puros, caminham no contra fluxo, atropelando outros corações. Tenho medo das narrativas de amor recitadas em palco e ausentes do coração. Tenho medo dos atos falhos do homem que não disse para o que veio e não corrige suas emoções.”


A Porta

Agosto 19, 2016

begenirsin

Texto:  Cris Guerra

“Thiago dorme no chão. Não é sem-teto nem está juntando dinheiro para comprar um colchão. Desde pequeno, dorme no chão por escolha. Ai de quem lhe oferecer uma cama macia.

Na hora de se casar, Thiago se viu diante de um dilema. Como encontrar uma forma de dormir que fosse confortável para as duas partes? A solução veio durante uma reforma. Uma porta sem serventia passou a compor o seu lado do colchão. A porta promovida a cama e o romance alguns degraus acima depois daquele passo. Cada um encontrou seu canto confortável para viver a dois, ora num quadrado, ora noutro – porque o amor também vira para o lado e dorme.

Thiago não convidou sua mulher para dormir no chão. Preferiu levar seu chão para a cama. Mentiria quem dissesse que o mérito é só dele. Coube a ela acolher uma porta. Poderiam ter se demorado em longas discussões, sem enxergar uma saída. Teriam visto nuvens, gramas, carpetes e tampos almofadados, certos de que para o impasse não haveria solução. Mas decidiram que iam encontrar um jeito.

É nessa escolha que mora o encanto capaz de fazer portas virar camas. A matéria do amor não é espuma ou madeira, que se toca com a mão. Nem é tão etérea que não se possa nominar ou sentir. Para alcançá-la, fecham-se os olhos em silêncio. E do escuro surgem imagens em alta resolução, aromas e vozes capazes de um abraço longo.

É preciso amor para enxergar a porta, colocar a mão na maçaneta e fazer dela uma saída. Contudo, amar não é esforço. Tampouco só desejo. Amar é vontade, esse desejo disciplinado e disposto, que não mede o perigo pois nem sequer o enxerga. Amor não é certeza rasa nem dúvida pairando no ar. O amor é.

Seu cultivo é cheio de mistérios, como o das orquídeas. Trabalho duro para quem não aprecia, prazer sem medida para os que se entregam. Vale decifrar o tempo de sol e sombra, a dose de água e adubo, em nome da alegria de ver surgir a flor. Difícil para os indecisos, assustador para os medrosos, como dizia Cecília Meireles. Para os amorosos, é simplesmente amor. Um motivo e tanto para se arriscar. Não é com alguns riscos que se desenha uma porta?”


Pra viver melhor

Agosto 8, 2016

FB_IMG_1466902895705Texto de autoria de Bruno Pitanga, Doutor em neuroimunologia, neurocientista, professor universitário e palestrante:

Pra viver melhor. Não se preocupe, *se ocupe.* Ocupe seu tempo, ocupe seu espaço, ocupe sua mente. Não se desespere, *espere.* Espere a poeira baixar, espere o tempo passar, espere a raiva desmanchar. Não se indisponha, *disponha.* Disponha boas palavras, disponha boas vibrações, disponha sempre. Não se canse, *descanse.* Descanse sua mente, descanse suas pernas, descanse de tudo. Não menospreze, *preze.* Preze por qualidade, preze por valores, preze por virtudes. Não se incomode, *acomode.* Acomode seu corpo, acomode seu espirito, acomode sua vida. Não desconfie, *confie.* Confie no seu sexto sentido, confie em você, confie em Deus. Não se torture, *ature.* Ature com paciência, ature com resignação, ature com tolerância. Não pressione, *impressione.* Impressione pela humildade, impressione pela simplicidade, impressione pela elegância. Não crie discórdia, *crie concórdia.* Concórdia entre nações, concórdia entre pessoas, concórdia pessoal. Não maltrate, *trate bem.* Trate bem as pessoas, trate bem os animais, trate bem o planeta. Não se sobrecarregue, *recarregue.* Recarregue suas forças, recarregue sua coragem, recarregue sua esperança. Não atrapalhe, *trabalhe.* Trabalhe sua humanidade, trabalhe suas frustrações, trabalhe suas virtudes. Não conspire, *inspire.* Inspire pessoas, inspire talentos, inspire saúde. Não se apavore, *ore.* Ore a Deus! Somente assim viveremos dias melhores.