Os maiores arrependimentos ao final da vida

Abril 23, 2017

ana-claudia-quintana-arantes-696x464

Ana Claudia Quintana Arantes é uma médica especializada em ajudar pacientes terminais a “aprender” a morrer. Nesta entrevista, ela fala sobre o desafio de se lidar com algo tão natural, porém, perturbador, como a própria morte.

A especialista relembra os cinco maiores arrependimentos das pessoas antes de morrer. A lista faz parte do livro ‘Antes de partir: uma vida transformada pelo convívio com pessoas diante da morte’, da enfermeira australiana Brownie Ware. “Um deles é não ter demonstrado afeto. Passamos a vida construindo muros ao redor do coração da gente pra ninguém perceber o que a gente está sentindo”, diz Ana. “A outra coisa é (se arrepender) de ter trabalhado tanto. O último que é colocado é: ‘Eu devia ter me feito mais feliz’, que pra mim resume todos os outros”.

Os outros arrependimentos citados pela enfermeira australiana são ter vivido a vida que se desejava e ter estado mais perto dos amigos.

A pedido do Hospital Albert Einstein, a médica Ana Cláudia Arantes, geriatra e também especialista em cuidados paliativos, analisou a publicação e falou sobre cada um dos arrependimentos levantados pela enfermeira australiana.

1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu queria, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse.
“Esse foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que a vida delas está quase no fim e olham para trás, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não realizou nem metade dos seus sonhos, e muita gente tem de morrer sabendo que isso aconteceu por causa de decisões que tomou, ou não tomou. A saúde traz uma liberdade que poucos conseguem perceber, até que eles não a têm mais.”

2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto.
“Eu ouvi isso de todos os pacientes homens com quem trabalhei. Eles sentiam falta de ter aproveitado mais a juventude dos filhos e a companhia de suas parceiras. As mulheres também falaram desse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais antiga, muitas não tiveram uma carreira. Todos os homens com quem eu conversei se arrependeram de passar tanto tempo de suas vidas no ambiente de trabalho.”

3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos.
“Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. Como resultado, acomodaram-se em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem realmente eram capazes de ser. Muitas desenvolveram doenças relacionadas à amargura e ao ressentimento que carregavam.”

4. Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos.
“Frequentemente, os pacientes não percebiam as vantagens de ter velhos amigos até chegarem em suas últimas semanas de vida, e nem sempre era possível rastrear essas pessoas. Muitos ficaram tão envolvidos em suas próprias vidas que deixaram amizades de ouro se perderem ao longo dos anos e tiveram muitos arrependimentos profundos por não ter dedicado tempo e esforço às amizades. Todo mundo sente falta dos amigos quando está morrendo.”

5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.
“Esse é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos só percebem isso no fim da vida – que a felicidade é uma escolha. As pessoas ficam presas em antigos hábitos e padrões. O famoso ‘conforto’ das coisas familiares e o medo da mudança fizeram com que eles fingissem para os outros e para si mesmos que estavam contentes quando, no fundo, ansiavam por rir de verdade e aproveitar as coisas bobas em suas vidas de novo.”


Uma Baleia Azul em um oceano de sofrimento subestimado

Abril 22, 2017

Texto: Amanda Mont’Alvão Veloso-HuffPost Brasil

.

“Eu confiava no jogo. Eu acreditava que aquilo ali ia me fazer ter coragem de me suicidar.”

Estas são palavras de Mariana (nome fictício), de 15 anos, moradora do Rio de Janeiro, em uma entrevista, gravada em vídeo ao jornal O Globo. Segundo a garota, ela passou a achar que a mãe não a amava. Mariana estava participando do desafio da Baleia Azul – uma série de 50 “tarefas” ordenadas nas redes sociais por um “curador”, sendo a última delas o suicídio. A mãe da adolescente, porém, descobriu a participação da filha a tempo de a impedir de continuar.

“A morte é o que eu mais procurei. É o que eu mais queria”, explica Mariana, que foi internada em hospital da zona oeste do Rio após desistir do desafio. Ao deixar a internação, ela tentou o suicídio. Desistiu quando percebeu o sofrimento da mãe e voltou a se tratar – ela relata sofrer de depressão. Estar no desafio da Baleia Azul parecia, para a garota, a saída para a dor insuportável que vivia.

Com o tratamento, ela fala em possibilidades que não envolvam a morte:

“Se eu fosse ela [a pessoa], não entraria [no jogo]. Isso só vai causar coisas ruins. Ao invés de parar sua tristeza, só vai aumentar. E vai acumular, acumular. Quando você vir, já vai estar vazio por dentro e por fora. Eu pediria a ela pra poder apostar uma única chance numa coisa que ela gosta. Talvez, sei lá, uma música boa que ela ouviu na rádio e de que ela goste. Talvez ela possa escutar aquilo e se sentir melhor. Porque eu sei o quanto que dói, mas não vai ser um jogo que vai fazer você parar de sentir dor. Nem a morte.”

Ao longo desta semana, os brasileiros têm debatido sobre os aspectos macabros, assustadores e sensacionalistas da Baleia Azul. Mas pouco se mergulha no oceano que possibilita sua existência, que é o sofrimento de quem adere ao desafio, nascido como um boato e feito real por alguns adolescentes no mundo, incluindo o Brasil.

“Quando os jovens encontram, no meio virtual, possibilidades de circulação social, por um lado os pais acham ‘ah, meu filho está dentro de casa, protegido’. Mas, ao mesmo tempo, eles estão expostos a uma série de outros estímulos que os pais desconhecem”, pondera ao HuffPost Brasil o psicanalista Tiago Corbisier Matheus, doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e autor do livro Adolescência: Clínica Psicanalítica (Casa do Psicólogo, 2012).

“O jovem vai se experimentando em situações de risco em um espaço que ele poderia estar em tese mais preservado. Mas ele está mais exposto em um outro sentido”, completa Corbisier.

Dois casos de morte estão sob investigação policial, em Mato Grosso e na Paraíba, além de uma tentativa de suicídio no Rio de Janeiro e cinco em Curitiba, o que levou a Secretaria Municipal de Saúde da capital paranaense a emitir um alerta aos pais e responsáveis de crianças e adolescentes. Uma vendedora em Bauru (SP) descobriu a participação do filho e buscou tratamento especializado.

De fake news a uma realidade de horror

O desafio da Baleia Azul surgiu como uma notícia falsa divulgada na Rússia e que se espalhou a partir de 2015, explica o presidente da Safernet, Thiago Tavares, a uma reportagem do G1. O psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC) de São Paulo, destaca que o site de verificação de boatos Snopes.com chegou à notícia original, publicada pelo periódico russo Novaya Gazeta. O serviço mostrou como a fake news era recheada de inferências e suposições, sem fatos apurados.

Lembremos que a “pós-verdade” (post-truth) foi eleita a palavra do ano em 2016 pela Universidade de Oxford. Segundo o dicionário, o substantivo “se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais“. Ou seja: Se o desafio da Baleia Azul não existia, se materializou a partir dos medos que ele encapsula. Tais pavores foram amplamente reverberados, e as redes sociais são palco fértil para que manifestações assim proliferem.

O medo tem trânsito fluido entre o virtual e o real. Em 1938, a população da costa leste dos EUA entrou em pânico quando Orson Welles, em um programa de rádio, noticiou uma suposta invasão de marcianos. Era véspera de Halloween (Dia das Bruxas). Milhares tentaram fugir, com aglomerações nas ruas e congestionamentos, além de sobrecarregarem as linhas telefônicas. A narração da invasão, feita em forma de programa jornalístico, como Welles habitualmente apresentava, nada mais era do que uma dramatização do livro de ficção científica A Guerra dos Mundos, do escritor inglês Herbert George Wells.

Longe do lúdico e colada no horror, a História recente do Brasil tem uma lamentável tragédia provocada pela divulgação de boatos nas redes sociais. Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, casada, mãe de duas meninas, morreu depois de ter sido linchada por uma multidão de pessoas no Guarujá (SP), em 2014.

Um boato espalhado no Facebook dizia que uma mulher estava sequestrando crianças da região para realizar rituais de magia negra. A mesma página de onde surgiu o post alarmista chegou a divulgar que se tratava de um boato, mas os compartilhamentos do desmentido pelos usuários da rede não foram tão intensos quanto a disseminação da mentira. Ao ser vista na rua, um morador associou Fabiane ao retrato divulgado, e as agressões começaram. A foto em questão pertencia a uma página de humor.

Sem oceano, não há baleia

Apesar de todo o tabu envolvido no suicídio, pensar em se matar não é atributo exclusivo dos adolescentes e está presente em toda a História da humanidade. Pensar é diferente de querer e de tentar. Inclusive, pensar em se matar pode fazer que o sujeito redescubra valor em viver, e pelo que viver.

Porém, o pensamento suicida tem possibilidade de se transformar em um suicídio em situações de vulnerabilidade. Para uma vida cujo sofrimento se tornou insuportável, intolerável, ele se apresenta como o ato derradeiro. É querer morrer para fazer a dor de viver parar. Por isso é um ato tão ambivalente, “entre o querer morrer e o querer viver de maneira diferente”, explica a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Em uma sociedade que aplica regime de silêncio ao suicídio, fica difícil abordar a questão em suas complexidades e estabelecer políticas de prevenção. Não deve parecer surpresa que 13 Reasons Why, uma série de ficção, tenha se tornado extremamente popular entre adolescentes e adultos que não podiam externar seus pensamentos “proibidos” de morte.

A recusa do sofrimento em nossas vidas tem sido uma regra geral da cultura ocidental. Pensar o sofrimento de adolescentes, então, torna-se impraticável. Entre dores não ouvidas ou abafadas por não saberem como expressá-las, jovens muitas vezes se veem confinados a uma vivência de emoções subestimadas.

Por mais angustiante que seja, eliminar o “jogo” da Baleia Azul não soluciona o que desperta o interesse. Há pelo menos dez anos, as redes sociais, e também a dark net (parte da deep web), oferecem diversos canais de incentivo à automutilação e à morte. Em 2006, Vinícius Gageiro Marques, o “Yoñlu”, de Porto Alegre (RS), se matou depois de ter sido estimulado ao suicídio e auxiliado por pessoas anônimas na internet. Ele estava passando por um tratamento de saúde mental.

O desafio da Baleia Azul tem um viés criminoso preocupante, uma vez que os chamados “curadores”, por meio de mensagens enviadas pelas redes sociais, estimulam ou instigam o suicídio entre os participantes. O funcionamento do jogo tem uma lógica voyerista, pela qual um jovem cumpre tarefas, como se automutilar, e as registra em vídeos enviados ao curador. Não há como avançar no desafio sem submeter vídeos ou fotos que comprovem o cumprimento de cada um dos passos.

A má intenção dos curadores aliada à predisposição dos participantes é que fazem do desafio da Baleia Azul um perigo real. Porém, a mesma estrutura que acolhe o crime tem sido infiltrada por pessoas dispostas a alertar os adolescentes envolvidos. Ao se cadastrar no jogo, um blogueiro da Gazeta do Povo foi abordado por diversos jovens se passando como curadores com o objetivo de conversar com os participantes e convencê-los a abandonar o desafio.

Além de ser necessário punir os criminosos que fomentam a incitação ao suicídio de internautas fragilizados e acompanhar, com proximidade, os ambientes virtuais frequentados pelos adolescentes, é preciso debater com urgência as causas da fragilização. O número de suicídios entre adolescentes e jovens no Brasil aumentou 15,3% entre 2002 e 2012, segundo a mais recente edição do Mapa da Violência, de 2014. É a terceira maior causa de mortes nessa faixa etária, perdendo apenas para homicídios e acidentes de trânsito.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte para pessoas de 15 a 29 anos e já mata mais que o HIV. A cada 40 segundos, uma pessoa se mata no mundo. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam. Para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

Se houvesse prevenção, 9 entre 10 pessoas ainda estariam vivas, de acordo com a OMS. “Como podemos prevenir o suicídio se não falarmos sobre ele? Como podemos perder o medo da morte se não falarmos sobre isso?”, questiona ao HuffPost Brasil o psicólogo chileno Marco Antonio Campos, representante do Chile na Associação de Suicidologia para América Latina e Caribe.

Segundo Corbisier, psicanalista especialista em adolescentes, o desafio da Baleia Azul ocorre tanto em um cenário de incerteza, com poucas perspectivas para os jovens em meio à crise social, política e econômica, como em um contexto de segregação. “O suicídio seria uma tradução mais literal daquilo que metaforicamente faz parte do processo adolescente contemporâneo, que costumo chamar de um ritual singular de passagem do infantil ao adulto”, explica.

“Vale a pena pensar para qual adolescente caberia esse desafio. Não seria para jovens que crescem em uma cultura com segregação intensa, com toda a preocupação diante da insegurança? Jovens que, na sua infância, deixam de frequentar a rua e têm muito menos convívio com o espaço público em função da preocupação dos pais? Mas a adolescência é exatamente esse momento em que o jovem gostaria de deixar esta condição de subordinado, que é associada à condição de filho, e passar ser visto como semelhante. Ele se vê convocado a se desprender das referências familiares. Se ele tá cerceado por isso, esse momento de transição pode se tornar vertiginoso. É o que me parece que está acontecendo por aqui.”

Nesse contexto, a depressão, cuja epidemia já foi alertada pela OMS, é fator a ser destacado, acrescenta Matheus. “Ela é uma patologia ampla a ser enfrentada, mas é pouco visibilizada. Diante das dificuldades de enfrentá-la, na própria complexidade do problema, os governos falam menos do que o problema pede.”

Particularmente nas metrópoles brasileiras, Corbisier diz ser perceptível um adoecimento generalizado em várias faixas etárias. Algumas vezes, esse adoecimento é constatado, mas em outras, é silencioso.

A busca por sentido

A dimensão da morte na adolescência não se restringe a um perfil socioeconômico, mas pode se apresentar de maneiras distintas. Para Corbisier, os jovens moradores de bairros mais afastados do centro, com menor presença do poder público e, consequentemente, com maior violência, tanto por parte da polícia quanto por parte dos grupos de crime organizado, já estão confrontados por desafios que têm uma dimensão mortal em seus cotidianos.

“Nesse sentido, desafios como este da Baleia Azul aproximariam, de alguma maneira, jovens privilegiados a um universo que já é enfrentado por jovens menos privilegiados, em espaços não muito distantes uns dos outros.”

O educador comunitário Alex Mauser percorre escolas da periferia de São Paulo para conversar com jovens. Ao HuffPost Brasil, ele diz perceber que os adolescentes querem atenção dos adultos, mas não a recebem. “Sinto que um jogo assim os atrai pela falta de atenção, de estrutura familiar ou por revolta.”

“O Baleia Azul me faz pensar no recrutamento do Estado Islâmico. Há uma grande preocupação na Europa quanto ao que faz jovens, nascidos em estados de promoção de bem-estar social, se disporem a ir para uma situação que flerta com a morte e que traz desafios que, em última instância, são mortais”, acrescenta Corbisier.

“Parece-me que existe uma dimensão de fazer alguma coisa que faça sentido para esses jovens, abraçando uma causa, um ideal ou uma utopia em uma imagem de heroísmo.”

Com o Baleia Azul, muitos pais têm buscado informação sobre como prevenir a entrada dos filhos no desafio ou como convencê-los a abandonar o jogo, mantido sob a ameaça de os “curadores” fazerem mal à família do participante. O diálogo se destaca como uma necessidade urgente, destaca o psicanalista:

“Os pais estão sendo postos à prova. O percurso que o jovem realiza é fruto de uma construção familiar. Filhos que têm interlocução com os pais vão estar menos suscetíveis a essas tentações e atrações. Os jovens que têm nos pais uma referência que não é nem autoritária nem infantilizante, no sentido de fazer tudo pelo filho sem que ele possa tomar decisões gradualmente ao longo do seu desenvolvimento, provavelmente não serão impelidos a darem passos radicais como esses jogos. Pais que têm um canal de diálogo com os filhos podem estar atentos ao que está mobilizando esses jovens.”

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.


Baleia Azul e as causas reais de suicídios

Abril 21, 2017

depressao

Texto: Camila Costa e Renata Mendonça – BBC Brasil

.

O nome parece inocente, mas os relatos de um jogo apelidado de Baleia Azul têm preocupado os brasileiros por causa dos casos de suicídio – ou de tentativa de suicídio – supostamente ligados à “brincadeira”. Pelo menos três Estados registraram ocorrências do tipo: Mato Grosso, Minas Gerais e Paraíba.

Segundo relatos, a ideia do jogo, que tem os adolescentes como alvo principal, é lançar 50 desafios aos participantes via mensagens de WhatsApp – muitos deles requereriam automutilação e incentivariam os jovens a se colocar em situação de perigo. O último seria tirar a própria vida.

Diante da “popularidade” do Baleia Azul, o youtuber Felipe Neto, que tem mais de 10 milhões de seguidores no YouTube, gravou um vídeo para alertar as pessoas – não sobre o jogo, que ele chama de “consequência”, mas sobre o real problema que leva as pessoas a cometerem suicídio.

“Quero trazer coisas aqui muito importantes sobre o mundo da depressão de fato. Que é muito mais importante do que o jogo. O jogo é um assunto sério, que precisa ser debatido. Mas o que é esse jogo? Vocês acham que o jogo da Baleia Azul é o responsável pela morte desses jovens? Eu não gostaria de acreditar que alguém saudável, estável psicologicamente jogue um jogo desses e termine se matando”, diz Neto no vídeo, que já teve mais de 4,6 milhões de visualizações e quase meio milhão de comentários.

Em entrevista à BBC Brasil, Felipe Neto, diagnosticado com depressão há sete anos, reiterou a importância de se aproveitar o momento em que o tema do suicídio vem à tona para falar sobre suas reais causas.

“A depressão e os transtornos mentais reagem a determinados gatilhos, que podem vir de uma série, de uma conversa, de uma palestra, de um jogo. O que eu acho importante é entender que o jogo em si é consequência, não é causa. Não acho que uma pessoa saudável mentalmente se mate por diversão. Isso é a consequência, e temos que tratar a causa”, afirmou.

“De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), quase 100% dos suicídios são consequência de doença mental. Então não é fraqueza, não é egoísmo, não é covardia. Os números não mentem.”

Segundo os dados mais recentes da OMS, o Brasil é o país que mais registra casos de depressão na América Latina e, considerando todo o continente, fica atrás apenas dos Estados Unidos.

Cerca de 5,8% da população brasileira tem diagnóstico de depressão e, para o youtuber, os casos podem ser muito mais numerosos se forem consideradas as pessoas que ainda não buscaram ajuda médica.

No vídeo, ele ainda cita outro dado alarmante: o Brasil é o oitavo país do mundo onde se cometem mais suicídios.

“Acho que já está mais do que estabelecido com esses dados que a depressão é uma das doenças mais perigosas da atualidade. E é preciso ter uma estratégia de combate ao suicídio e à depressão, com envolvimento do governo, da mídia, da sociedade”, pontuou.

Silêncio e preconceito

Felipe Neto descobriu que tinha depressão após crises de ansiedade e de pânico o levarem a procurar ajuda clínica. Por ser filho de um psicólogo, ele teve um pouco mais de facilidade para identificar e lidar com a doença.

“Eu tive a sorte de ter contato com a Psicologia e com informação. As pessoas não têm a mesma sorte”, observa à BBC Brasil.

Mesmo sabendo, de certa forma, lidar com o problema, Neto demorou para revelá-lo a seus pais – e foram poucos os amigos que souberam.

“Dá vergonha, você não quer falar do assunto. Senão as pessoas vão querer dar pitaco, vão dizer que é coisa da tua cabeça. Acabou que eu não contava.”

“As pessoas passam a olhar pra você diferente, porque ‘ah, essa pessoa tem depressão’. Eu tenho depressão, é um caso leve, eu tomo um remédio que nem tarja preta é, e nunca tive problemas, minha última crise foi meses atrás. Mas esse estereótipo, esse preconceito, essa visão deturpada e classificá-la como uma pessoa problemática faz com que as pessoas não queiram falar sobre essa doença ou admiti-la.”

Quanto mais as pessoas se calam e se isolam quanto a um problema sério como a depressão, maior se torna o risco de a doença ter consequências mais graves, como o suicídio, conforme alerta a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Para a coordenadora da comissão de estudo e prevenção de suicídio da entidade, Alexandrina Meleiro, é preciso aproveitar o fato de os relatos do jogo Baleia Azul e o lançamento da série da Netflix 13 Reasons Why, que também trata de suicídio, terem trazido o tema à tona para combater os preconceitos e os tabus atrelados a ele.

“Eu acho bom que esse seja o assunto da moda no momento, porque (a abordagem de) um assunto tão cheio de tabu, de preconceito e de estigma traz à tona a importância de a gente olhar para os jovens que estão sob risco, para que a gente possa reverter a situação e fazer a prevenção”, diz à BBC Brasil.

“Sabemos que, por causa da série do Netflix e do jogo da Baleia Azul, quase quadruplicou o número de ligações no CVV (Centro de Valorização da Vida) nos últimos 15 a 20 dias”, acrescenta a especialista.

“No WhatsApp, recebemos muitas mensagens sobre adolescentes se matando por conta do jogo da Baleia Azul, mas não há dados, então não temos como saber exatamente o que está acontecendo”, resalva.

“É preocupante, e estamos aproveitando para esclarecer para pais, professores e para outros profissionais em saúde a importância de não banalizar o risco de suicídio e de identificar precocemente as mudanças de comportamento do adolescente para poder interferir e ajudar.”

Para Felipe Neto, a desqualificação da depressão, que muitas vezes é chamada “doença de rico”, agrava ainda mais o problema – e contribui para o silêncio das vítimas.

“O preconceito é a base do silêncio dessas pessoas. É preciso gerar vergonha naqueles que estão sendo preconceituosos. Pode ter certeza que nos comentários dessa matéria vão aparecer pessoas preconceituosas minimizando e desqualificando pessoas depressivas. Essas pessoas precisam perceber o tamanho da sua ignorância.”

Indícios

No vídeo, o youtuber alerta os pais de que o jogo Baleia Azul não deve ser a maior preocupação deles no momento.

“Vejo muita gente falando: porque o jogo matou, cuidado com seu filho jogando. Mas cuidado com seu filho. Antes de se preocupar com o jogo, você tem que se preocupar com ele. O jogo é uma consequência de pessoas que estão passando por problemas. Um problema silencioso sobre o qual muitas pessoas no mundo não gostam de falar.”

A coordenadora da Associação Brasileira de Psiquiatria afirma que é preciso estar atento à mudança de comportamento para identificar sinais de depressão ou de possíveis distúrbios mentais que possam levar ao suicídio.

“A primeira coisa que nos chama a atenção é a mudança de comportamento. Ou está mais agressivo, mais fechado, mais isolado. Alguma coisa pode ter mudado, mesmo que o adolescente já seja tímido. Está aparentando mais tristeza, já não toma banho, não sai com os amigos, não interaje. Pais e professores têm que estar alerta.”

Mas, uma vez identificados sintomas, como os pais ou as pessoas próximas devem agir? O conselho de Felipe Neto é: procurar ajuda profissional.

“Acho que a primeira coisa que o pai ou mãe têm que fazer se encontrar indício é procurar psicólogo para ele (o pai e/ou a mãe). O pai fazer terapia é tão importante quanto o filho. Porque se os pais não souberem lidar com a depressão do filho, o filho não vai conseguir sair dessa sem ajuda deles”, diz.

Também é importante mostrar a essas pessoas que elas não estão sozinhas, lembra Neto. “É preciso dizer que não é impossível sair dessa fossa que estão, que não é tão difícil quanto parece. Que elas só têm que dar a mão para alguém ajudar.”

Conscientizar, educar e prevenir seriam as melhores armas para combater a depressão e sua pior consequência – o suicídio -, explica Alexandrina Meleiro. Pensar ou desejar a morte não é “anormal” ou necessariamente problemático – mas passar disso para um planejamento de execução, ela esclarece, é sinal de alerta.

“Ter pensamentos suicidas é natural. Em qualquer momento da vida, as pessoas podem ter a ideia de morte: ‘Eu quero morrer’. Mas, da ideia, pode vir o desejo de se matar e o plano de se matar e o ato de se matar. São momentos diferentes”, diz.

“Dessa fase para o planejamento e a execução existem passos muito largos – que uma pessoa impulsiva pode executar rapidamente. É nesse tempo que temos que identificar, interferir e prevenir.”

*Se você tem pensamentos suicidas persistentes ou planeja um suicídio, ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV) no número 141, de qualquer lugar do Brasil. Também é possível entrar em contato com a organização via internet, a partir de e-mail, chat e Skype 24 horas por dia.


É preciso…

Abril 20, 2017

mao

Texto: Alberto Caieiro – O Guardador de Rebanhos

.
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …

 


“A base de um cérebro saudável é a bondade, e pode-se treinar isso”

Abril 18, 2017

bondade

 

Richard Davidson, PhD em neuropsicologia e pesquisador na área de neurociência afetiva

Nasci em Nova Iorque e moro em Madison, Wisconsin (EUA), onde sou professor de psicologia e psiquiatria na universidade. A política deve basear-se naquilo que nos une. Só assim poderemos reduzir o sofrimento no mundo. Acredito na gentileza, na ternura e na bondade, mas temos que nos treinar nisso.

Eu estava investigando os mecanismos cerebrais ligados à depressão e à ansiedade.

…E acabou fundando o Centro de Investigação de Mentes Saudáveis.

Quando eu estava no meu segundo ano na Universidade de Harvard, a meditação cruzou o meu caminho e fui para a Índia investigar como treinar a minha mente. Obviamente, meus professores disseram que eu estava ficando louco, mas aquela viagem marcou meu futuro.

…E assim que começam as grandes histórias.

Descobri que uma mente calma pode produzir bem-estar em qualquer tipo de situação. E quando me dediquei a investigar, por meio da neurociência, quais são as bases para as emoções, fiquei surpreso de ver como as estruturas do cérebro podem mudar em tão somente duas horas.

Em duas horas!

Hoje podemos medir com precisão. Levamos meditadores ao laboratório; e antes e depois da meditação, tiramos uma amostra de sangue deles para analisar a expressão dos genes.

E a expressão dos genes muda?

Sim. E vemos como as zonas com inflamação ou com tendência à inflamação tinham uma abrupta redução disso. Foram descobertas muito úteis para tratar a depressão. Contudo, em 1992, conheci o Dalai Lama e minha vida mudou.

Um homem muito encorajador.

“Admiro seu trabalho – ele me disse -, mas acho que você está muito centrado no estresse, na ansiedade e na depressão. Nunca pensou em focar suas pesquisas neurocientíficas na gentileza, na ternura e na compaixão?”.

Um enfoque sutil e radicalmente distinto.

Fiz a promessa ao Dalai Lama de que faria todo o possível para que a gentileza, a ternura e a compaixão estivessem no centro da pesquisa. Palavras jamais citadas em um estudo científico.

O que você descobriu?

Que há uma diferença substancial entre empatia e compaixão. A empatia é a capacidade de sentir o que sentem os demais. A compaixão é um estado superior. É ter o compromisso e as ferramentas para aliviar o sofrimento.

E o que isso tem a ver com o cérebro?

Os circuitos neurológicos que levam à empatia ou à compaixão são diferentes.

E a ternura?

Forma uma parte do circuito da compaixão. Umas das coisas mais importantes que descobri sobre a gentileza e a ternura é que se pode treiná-las em qualquer idade. Os estudos nos dizem que estimular a ternura em crianças e adolescentes, melhora os resultados acadêmicos, o bem-estar emocional e a saúde deles.

E como se treina isso?

Primeiro, levando a mente deles até uma pessoa próxima, que eles amam. Depois, pedimos que revivam um momento em que essa pessoa estava sofrendo e que cultivem o desejo de livrar essa pessoa do sofrimento. Logo, ampliamos o foco para pessoas não tão importantes e, por fim, para aquelas que os irritam. Estes exercícios reduzem substancialmente o bullying nas escolas.

Da meditação à ação há uma distância.

Umas das coisas mais interessantes que tenho visto nos circuitos neurais da compaixão é que a área motora do cérebro é ativada: a compaixão te capacita para agir, para aliviar o sofrimento.

Agora você pretende implementar no mundo o programa Healthy Minds (mentes saudáveis).

Esse foi outro desafio que o Dalai Lama me deu, e temos elaborado uma plataforma mundial para disseminá-lo. O programa tem quatro pilares: a atenção; o cuidado e a conexão com os outros; o contentamento de ser uma pessoa saudável (fechar-se nos próprios sentimentos e pensamentos é uma das causas da depressão)…

…É preciso estar aberto e exposto.

Sim. E, por último, ter um propósito na vida. Que é algo que está intrinsecamente relacionado ao bem-estar. Tenho visto que a base para um cérebro saudável é a bondade. E treinamos a bondade em um ambiente científico, algo que nunca tinha sido feito antes.

Como podemos aplicar esse treinamento em nível global?

Por meio de vários setores: educação, saúde, governo, empresas internacionais…

Por meio desses que têm potencializado este mundo de opressão em que vivemos?

Tem razão. Por isso, sou membro do conselho do Foro Econômico Mundial de Davos. Para convencer os líderes de que é preciso levar às pessoas o que a ciência sabe sobre o bem-estar.

E como convencê-los?

Por meio de provas científicas. Tenho mostrado a eles, por exemplo, o resultado de uma pesquisa que temos realizado em diversas culturas diferentes: se interagirmos com um bebê de seis meses usando fantoches, sendo que um deles se comporta de forma egoísta e o outro de forma amável e generosa, 99% dos bebês prefere o boneco que coopera.

Cooperação e amabilidade são inatas.

Sim, mas são frágeis. Se não são cultivadas, se perdem. Por isso, eu, que viajo muitíssimo (o que é uma fonte de estresse), aproveito os aeroportos para enviar mentalmente bons desejos a todos com quem cruzo no caminho, e isso muda a qualidade da experiência. O cérebro do outro percebe isso.

Em apensa um segundo, seguem o seu exemplo.

A vida é só uma sequência de momentos. Se encadearmos essas sequências, a vida muda.

Hoje, mindfulness (atenção plena) tornou-se um negócio.

Cultivar a gentileza é muito mais efetivo do que se centrar em si mesmo. São circuitos cerebrais distintos. A meditação em si não interessa para mim. O que me importa é como acessar os circuitos neurais para mudar o seu dia-a-dia, e sabemos como fazer isso.

Ciência e Gentileza

A pesquisa de Richard Davidson está centrada nas bases neuronais da emoção e nos métodos para promover, por meio da ciência, o florescimento humano, incluindo a meditação e as práticas contemplativas. Ele fundou e preside o Centro de Investigação de Mentes Saudáveis na Universidade de Wisconsin-Madison, onde são realizadas pesquisas interdisciplinares com rigor científico sobre as qualidades positivas da mente, como a gentileza e a compaixão. Richard Davidson já acumula prêmios importantes e é considerado uma das cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. É autor de uma quantidade imensa de pesquisas e tem vários livros publicados. Ele conduziu um seminário para estudos contemplativos em Barcelona.

*Traduzido de entrevista publicada no site do La Vanguardia 


Novo espaço

Abril 12, 2017

20170408_201809

Gostaria de comunicar à todos meu novo espaço de atendimento, criado com todo carinho para acolher a cada pessoa que buscar apoio e auto conhecimento através da psicoterapia. Acredito que o lugar deve refletir a idéia de um abraço, de aconchego e serenidade, conforto e segurança, algo como um porto seguro que permita atravessar tempestades e recarregar energias para novas travessias.

     Continuo no mesmo prédio, no Helbor Offices Vila Rica, na Av. Conselheiro Nébias 754 , 15º andar, conjunto 1505, mesmo telefone (3222 2601)

Estarei mais presente, atualizando este blog com mais frequência, com textos que considero interessantes para reflexão. Obrigada pelo apoio e carinho de sempre!


Óperas na madrugada

Setembro 8, 2016

coragem

Texto:  Mo Amorim

eu não ligo pra número do mesmo jeito que ligo pra estrelas. eu prefiro sempre as estrelas, o sonho à lucidez. não dá pra negar que ainda me sinto uma menina de dezessete: viva e fresca por dentro, nos sonhos e nas minhas verdades. talvez exista mais motivos para Mercedes Sosa ter cantado tantas vezes ”volver a los 17” em shows para velhos incríveis… cabe confessar que não ligo para o fato da vida não ser assim tão emocionante quando esperamos que ela seja o máximo. e não há atalhos para a felicidade. é preciso atravessar cada porta, uma de cada vez. descascar as cascas que nos puseram. e mesmo que não queiramos, algumas situações nos expulsam. a única coisa de honesto que posso fazer é atravessar o caminho sob meus pés. e só quando eu piso é que ele se faz. gosto de ouvir óperas enquanto a madrugada me abraça, calma, gelada e perfeita. e só quem ama madrugadas pode entender o que digo agora. eu respiro fundo quando vejo uma cena bela, respiro pra não desidratar, porque tudo me emociona. assim como um beijo bem dado e demorado. assim como uma declaração de amor sob o luar. e pra terminar, eu admito que tenho feito planos, porque todo ferrado, você sabe, meu amor, precisa de um. sim, eu preciso ser justa comigo e me cuidar.