A Porta

Agosto 19, 2016

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Texto:  Cris Guerra

“Thiago dorme no chão. Não é sem-teto nem está juntando dinheiro para comprar um colchão. Desde pequeno, dorme no chão por escolha. Ai de quem lhe oferecer uma cama macia.

Na hora de se casar, Thiago se viu diante de um dilema. Como encontrar uma forma de dormir que fosse confortável para as duas partes? A solução veio durante uma reforma. Uma porta sem serventia passou a compor o seu lado do colchão. A porta promovida a cama e o romance alguns degraus acima depois daquele passo. Cada um encontrou seu canto confortável para viver a dois, ora num quadrado, ora noutro – porque o amor também vira para o lado e dorme.

Thiago não convidou sua mulher para dormir no chão. Preferiu levar seu chão para a cama. Mentiria quem dissesse que o mérito é só dele. Coube a ela acolher uma porta. Poderiam ter se demorado em longas discussões, sem enxergar uma saída. Teriam visto nuvens, gramas, carpetes e tampos almofadados, certos de que para o impasse não haveria solução. Mas decidiram que iam encontrar um jeito.

É nessa escolha que mora o encanto capaz de fazer portas virar camas. A matéria do amor não é espuma ou madeira, que se toca com a mão. Nem é tão etérea que não se possa nominar ou sentir. Para alcançá-la, fecham-se os olhos em silêncio. E do escuro surgem imagens em alta resolução, aromas e vozes capazes de um abraço longo.

É preciso amor para enxergar a porta, colocar a mão na maçaneta e fazer dela uma saída. Contudo, amar não é esforço. Tampouco só desejo. Amar é vontade, esse desejo disciplinado e disposto, que não mede o perigo pois nem sequer o enxerga. Amor não é certeza rasa nem dúvida pairando no ar. O amor é.

Seu cultivo é cheio de mistérios, como o das orquídeas. Trabalho duro para quem não aprecia, prazer sem medida para os que se entregam. Vale decifrar o tempo de sol e sombra, a dose de água e adubo, em nome da alegria de ver surgir a flor. Difícil para os indecisos, assustador para os medrosos, como dizia Cecília Meireles. Para os amorosos, é simplesmente amor. Um motivo e tanto para se arriscar. Não é com alguns riscos que se desenha uma porta?”


Pra viver melhor

Agosto 8, 2016

FB_IMG_1466902895705Texto de autoria de Bruno Pitanga, Doutor em neuroimunologia, neurocientista, professor universitário e palestrante:

Pra viver melhor. Não se preocupe, *se ocupe.* Ocupe seu tempo, ocupe seu espaço, ocupe sua mente. Não se desespere, *espere.* Espere a poeira baixar, espere o tempo passar, espere a raiva desmanchar. Não se indisponha, *disponha.* Disponha boas palavras, disponha boas vibrações, disponha sempre. Não se canse, *descanse.* Descanse sua mente, descanse suas pernas, descanse de tudo. Não menospreze, *preze.* Preze por qualidade, preze por valores, preze por virtudes. Não se incomode, *acomode.* Acomode seu corpo, acomode seu espirito, acomode sua vida. Não desconfie, *confie.* Confie no seu sexto sentido, confie em você, confie em Deus. Não se torture, *ature.* Ature com paciência, ature com resignação, ature com tolerância. Não pressione, *impressione.* Impressione pela humildade, impressione pela simplicidade, impressione pela elegância. Não crie discórdia, *crie concórdia.* Concórdia entre nações, concórdia entre pessoas, concórdia pessoal. Não maltrate, *trate bem.* Trate bem as pessoas, trate bem os animais, trate bem o planeta. Não se sobrecarregue, *recarregue.* Recarregue suas forças, recarregue sua coragem, recarregue sua esperança. Não atrapalhe, *trabalhe.* Trabalhe sua humanidade, trabalhe suas frustrações, trabalhe suas virtudes. Não conspire, *inspire.* Inspire pessoas, inspire talentos, inspire saúde. Não se apavore, *ore.* Ore a Deus! Somente assim viveremos dias melhores.


Sobre a vaidade

Julho 30, 2016

 

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Ilustração: Nice Lopes

Autor: Leandro Karnal

Coluna do Estadão (24/07/16):

Sobre a vaidade

Soberana, mas agressiva quando provocada: a vaidade é lâmina afiada, pronta para o combate. Um colega, cuja postura política é distinta de minha, comentou que jamais aceitaria um convite destes. Respondi que ele deveria esperar primeiro que o convite fosse formulado a ele para saber se aceitaria ou não. Até lá, comentei sardônico, seria lícito supor que a imaginada negativa pudesse ser filha mais da inveja do que da consciência política. Orgulhosos não se toleram refletidos: rompemos.
Guiado pelos cavalos do triunfo, segui no meu deleite interno por alguns dias. Depois, como o servo que sussurrava aos generais romanos, fui ouvindo a voz da consciência prudente, que nada mais é do que a voz do medo. Lembra-te de que és apenas um homem. Será que eu conseguiria? Tenho algo a dizer toda semana? Artigos esporádicos? Criei-os às grosas. Mas… toda semana? Ser bom num texto é mais fácil do que ser bom sempre. O triunfo empacou no medo. Tal temor também é fruto da vaidade: vou me expor a um mundo gigantesco, como jamais fiz. Teria sonhado alto demais?
Piorou minha angústia: lembrei-me de que estaria ao lado de um homem que leio há anos e considero genial: Luis Fernando Verissimo, filho de outro homem que admiro desde a infância. Fico apenas nesse nome, mas há muitos outros. Minha vaidade é enorme, mas não é patológica. Reconheço qualidades em Luis Fernando Verissimo que nunca existirão em mim. O lago no qual Narciso se admira viu o reflexo da queda de Ícaro… Suas asas de cera não poderiam ter tocado na luz de Apolo. Poderei estar ao lado de Luis Fernando Verissimo?
A reunião com o diretor de Jornalismo João Caminoto trouxe, além do encontro agradável, uma certeza clara. Perguntei sobre ponto nevrálgico para toda pessoa com aspiração a escrever e pensar. Serei livre? Terei carta branca? Intelectuais toleram quase tudo, até festa de formatura, mas temos uma ojeriza ancestral à censura. João foi enfático. Sim, eu seria inteiramente livre. O Estadão apenas oferecia o patíbulo: a tipologia do nó da forca e a liberdade do salto para a morte seriam, inexoravelmente, meus. O terrível, pensei, era que a censura e a repressão fizeram brotar pérolas como As Moscas, de Sartre; ou O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Curiosamente, a liberdade não parecia ser um fermento tão poderoso para o pão da criatividade.

Quando entrei na Unicamp, há duas décadas, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Era o zênite de anos de bancos escolares, livros, arquivos, viagens e pesquisas. Senti, naquele dia, que eu estava ingressando em algo muito maior. A Unicamp era uma galáxia e eu estava muito feliz com isso. Continuo satisfeito.
A sensação voltou agora. Um veículo como o Estadão é maior do que as tiragens dos meus livros, do que o número de alunos regulares ou de seguidores virtuais. Não me deram uma gaveta maior: trocaram o armário e redefiniram a própria concepção de espaço.
Com esta coluna, entrarei nas casas todos os domingos e centenas de milhares de famílias irão me receber. Também serei acessado via internet e lido de forma randômica. Abro espaço para ser conhecido, e, consequência inevitável, mal interpretado.
Com medo e com orgulho, assino esta primeira coluna. Nela, há uma fórmula que tem sido a minha em textos não acadêmicos e palestras. Se o leitor atento percebeu, sob a prosa despretensiosa existe uma reflexão sobre a vaidade, sobre mídia, censura e conhecimento de si. Com fios de cultura formal e observações do mundo ao meu redor, teço estas palavras na minha Ítaca da Rua Cotoxó. Busco dizer coisas com humor e inteligência (só busco, oh, meus incipientes patrulheiros).
Sem humor e sem inteligência, a vida fica insuportavelmente monótona. Tenho um misto de medo e de entusiasmo. Toda partida tem um Velho do Restelo, venerando e aziago. Quase sempre ele tem razão, mas não haveria epopeia se o medo nos guiasse. Também não haveria naufrágios. Minha felicidade nunca esteve nas ondas rasas. Sempre aceitei o jogo ambíguo do risco e do desafio. Um bom domingo a todos vocês!


Senhas de amor

Janeiro 28, 2015

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Texto:  Mô Amorim

Enquanto vasculho meus papéis para apresentar ao homem carrancudo da Receita Federal, encontro um bilhetinho dela dizendo: ”Passo aqui depois das seis para beijar teu corpo inteiro”. Estremeci, não por causa da iminência do homem carrancudo pegar o bilhete, mas porque ela não está mais comigo.
Ainda lembro dela entrando na sala e rindo. Que risada gostosa que enchia toda a casa! Lembro do seu jeito de falar dos cabelos, tão inimigos dela, por ela mesma. Lembro dela espiando o apartamento da vizinha e preocupada dizia que a tal deveria ter morrido, afinal estava há oito horas na mesma posição. Lembro do seu jeito de beber vinho e ficar bêbada fácil e dizer que nunca mais iria beber. E depois disto, querer me beijar e passar os dedos em minhas pálpebras delicadamente. E rir doida entre os beijos.
E de encostar em mim à noite, com medo da noite. Talvez fosse apenas desculpa, mas ela segurava a barra do meu pijama como se não quisesse sair daquele sonho que era a gente.
Ciumenta e chata, muito chata! Deliciosamente implicante. Eu ficava bravo e ela, depois ria. No café, sem açúcar, ela me olhava devagar. Olhava pra mim e gostava de me ver falar, como nenhuma outra. Eu palestrava e ela assistia a tudo, vidrada em mim.
E de repente, eu tinha uma ideia e ela topava, fosse o que fosse: cinema, jardim, banquinho de praia. Eu não sabia que era ela, que era ela, que era ela a mulher da minha vida.
Mas fui achando tudo aquilo normal, e não dei muita bola. Eu a tratei exatamente como o Manual de Macho ensina.
E sem perceber, tudo foi ficando meio cinza, fosco. E ela já não achava graça. Na verdade, não era de mim que ela não achava graça, mas da situação, do leite que eu deixei derramar, do mimo que eu deixei de dar, de como eu deixei de sonhar.
Ela foi ficando ressentida, um misto de doente e de cismada. Eu fui ficando bravo, distante e irritado.
Ela já não me ouvia, não estava mais ali. De tão transparente que era, eu a vi longe de mim. E em vez de abraçá-la, de pedir que voltasse, eu a deixei ir. Eu não insisti.
E ela foi aos poucos e me deixou louco. Nem bilhete deixou, mas também, nem precisou. O último foi este aqui, dizendo que beijaria todo meu corpo depois das seis.
Agora cá estou, aguardando meu número na senha do visor para apresentar meus papéis ao homem carrancudo, no meio de uma vida normal, sentindo saudade de uma garota fenomenal.
Ontem ainda pensei em ligar, escrever uma carta, sei lá! Como entrar em seus poros de novo? Como reconquistar seu olhar? Eu soube que ela foi para Floripa, foi morar lá. Eu ainda penso nela. Ainda levanto pensando em lhe fazer café. Será que ela dorme esparramada? Será que ela tem outro cara? Será que ela ainda acorda à noite assustada? Ás vezes, tão frágil parecia. Noutras vezes, tão rainha me inspirava. Seus tímidos sentidos me arrepiavam.
Meu número é chamado e eu derrubo todos os papéis. Seu bilhete some no chão extremamente branco de mármore. Eu começo a gelar. O número acende de novo no visor de senhas. Outra pessoa vai em meu lugar. Eu preciso achar… foi o último bilhete, a senha de amor que eu deixei passar.


Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios

Novembro 10, 2014

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Texto: André J. Gomes

E de agora em diante, fica estabelecido que todos os corações vazios, mal amados, partidos, abandonados ou tão somente subutilizados serão pacífica e amorosamente invadidos e ocupados pelo amor em todas as suas formas.

Sem paus e pedras e enxadas, mas com flores e música e presentes e simples declarações de apreço e cuidado, o amor tomará posse irrevogável de todo e qualquer coração devoluto. Banqueiros e bancários, construtores e operários, empresários, professores, artistas de rua, profissionais de toda sorte, adultos e crianças e velhinhos, todas as almas solitárias deste mundo! Preparem-se para ceder sem luta à chegada implacável do amor às terras férteis de seus corações.

Abram seus portões, escancarem as portas, liberem as janelas, prendam os cachorros e preparem a casa à visita permanente do amor operário, trabalhador, corajoso e simples. Ele vai chegar sem slogans ou passeatas, sem discursos, gritos de guerra ou enfrentamentos com a polícia. Vai surgir na hora mais silenciosa da noite, deitar ao seu lado e acordar com você na hora de ir ao trabalho, como se ali estivesse desde sempre.

O amor vai chegar assim, de manso, mas com o passo forte e a potência de um jato varrendo a craca dos rancores, a sujeira grossa dos maus pensamentos, a gordura acumulada das chateações diárias, da burrice, da inveja, da grosseria. Virá com a força mesma da vida, desobstruindo os canais da memória entupidos de morte. Virá alegre como o cão que reencontra o dono depois da eternidade de um dia inteiro sozinho em casa, à espera.

E então as preocupações ordinárias e mesquinhas farão as malas e deixarão os corações livres para viver em absoluto estado de ocupação plena pelas intenções e ações de um amor generoso, diário e vital.

Esse amor que acorda cedo e faz ginástica, que parece tão mais jovem do que de fato é, esse amor vai pintar as paredes da casa, mudar a posição dos móveis, vai matar a sede e a fome que restam, soltar os passarinhos de suas gaiolas ridículas, vai cuidar da horta no quintal e presentear os vizinhos com as verduras frescas. Esse amor vai florescer e perdurar e se esparramar pelas redondezas. Vai levar ao passeio diário os cachorros que vivem dentro de cada um de nós. Esse amor vai invadir em paz a nossa vida tão talhada para a guerra.

E quando as forças armadas de um coração já machucado se levantarem em defesa natural de sua estrutura, em puro e simples movimento de autopreservação, o amor estenderá sua mão pequena e linda, de unhas roídas e sem nenhum esmalte, e todas as armas cairão em silêncio. Então esse coração abrirá suas fronteiras à chegada irrefreável do encantamento amoroso e total, explosão de energia que nos leva ao encontro de quem somos, nos resgata da morte e nos devolve, sãos e salvos, à vida que é hoje, amanhã e depois um longo e eterno agora.


A tua sorte

Novembro 4, 2014

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Texto: Paulo Henrique Almeida

A tua sorte é que o sol vai nascer todos os dias e você não vai conseguir fugir desse brilho. E as tuas manhãs não vão parar para ouvir suas recusas, você vai ter que levantar e seguir o teu ritmo.
A tua sorte é que o amor e a alegria são sentimentos involuntários, e eles vão surgir ainda que você não queira, não há como escapar do que preenche o teu sorriso.
A tua sorte é que a alma se fortalece mesmo quando você está mais sensível, e que ela te exige. As vezes é quando se está no chão que você aprende a crescer.
A tua sorte é que o mundo tem esquinas. Que a vida é mais do que os teus olhos já viram. E que o que há de vir tem uma força muito maior do que o que já foi embora e o que deixou de acontecer.
A tua sorte é que teu coração sangra, e de tanto apanhar ele aprende a matar tudo que não deve permanecer dentro de ti.


Sexualidade Masculina: Medicalização, Virilidade e Fragilidade

Setembro 21, 2014

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Texto: Carla Andrea Ziemkiewicz

( Artigo produzido na Pós graduação em Educação Sexual da UNISAL – 06/2014 )

Introdução

Uma das características dos tempos atuais que mais tem promovido mudanças significativas no comportamento sexual dessa geração é a crescente utilização de medicamentos para disfunção erétil, o Viagra e seus similares. A função para a qual destinava sua indicação, que por si só traria enormes benefícios aos reais portadores de disfunções, foi enormemente extrapolada pelos diversos meios de comunicação de massa e pelas amplas campanhas de marketing das indústrias farmacêuticas, com claros interesses lucrativos.

Este artigo pretende discutir questões ligadas ao uso destes medicamentos como artifício para aplacar inseguranças masculinas relacionadas ao crescente liberalismo feminino, ao medo do desempenho e à negação do processo de envelhecimento.

Sexualidade, medicalização, questões de gênero e relações de poder

A sexologia pode ser analisada através do mapeamento de 3 fases históricas do seu desenvolvimento enquanto “scientia sexualis”, conforme Russo. A primeira centrada nas sexualidades periféricas ao casal heterossexual, as chamadas perversões. Surge na virada do século XX na Europa, especialmente na Alemanha e seriamente afetada pela Segunda Guerra Mundial. Era dominada pelo estudo das perversões e na patologização do sujeito.

A segunda sexologia surge entre 1922 e 1948, segundo André Béjin, com foco no sexo marital, que ocorre logo no pós guerra.  Em 22 com Wilhelm Reich e a descoberta da potência orgásmica e em 48 com Alfred Kinsey com a publicação do Sexual Behavior of the Human Male, passando a tema central dos estudos da sexologia o orgasmo.

Ocorre um deslocamento geográfico da Europa para os Estados Unidos da América e uma transformação nos estudos, fazendo uma distinção entre sexualidade e reprodução. Inicia-se, segundo Béjin, a concepção de uma sexualidade autônoma cujo objetivo é o prazer.

Nos EUA, nas décadas de 60 e 70, destaca-se o importante trabalho de William Masters e Virgínia Jhonson,  com suas pesquisas.

Vale à pena ressaltar que neste período histórico, intensas transformações políticas e culturais ocorreram, com início neste mesmo cenário dos EUA, como os movimentos feministas, movimento gay, festivais como Woodstock etc. Todo o universo da sexualidade humana é marcado por esta palavra de ordem: “liberação”

As pesquisas de Masters e Jhonson estabelecem a chamada “Resposta Sexual Humana”. Ela constitui os parâmetros da fisiologia sexual “normal” e indica o tratamento das “inadequações” através de aprendizagem e treinamento do comportamento, ou seja, no âmbito psicológico e envolvendo o casal.

Russo destaca o importante conceito, até então, das inadequações como orgânicas e  também relacionais, sendo que, segundo a autora, a partir dos anos 90, a concepção da “função sexual”, que diz respeito à relação entre o casal, é substituída e reduzida ao funcionamento do aparelho genital.

Conforme analisa Russo em seu artigo, “ocorrem dois caminhos paralelos: intensa politização da sexualidade e uma não menos intensa psico-medicalização da sexualidade”.

Ocorre a biomedicalização da sexualidade concebendo uma visão puramente orgânica do sexo. No início do século XX, Wilhelm Stekel formulou um conceito psicogênico da impotência, ou seja, diz respeito à totalidade do sujeito, aos fatores situacionais e históricos de sua vida. Em 61, Lombardi Kelly propõe uma definição médica da impotência, ressaltando a incapacidade de ter ou manter relações sexuais através de uma ereção satisfatória. Assim, a impotência genital passa a se distinguir por sua causa (física, funcional ou psicogênica).

Paulatinamente toda a concepção da sexualidade como um complexo humano envolvendo corpo físico, funções, sensações, emoções, imaginário, relações, cultura e sua interação, reduziu-se a um aspecto puramente físico, funcional, cuja medicação promete curar ou melhorar o desempenho.

Durante os anos 80 e 90, as terapias sexuais promovem uma biologização do psicológico, especialmente na psiquiatria e ocorre uma grande expansão dos avanços tecnológicos na indústria farmacêutica.

A medicalização é definida como “um processo pelo qual problemas não médicos se tornam definidos e tratados como problemas médicos, usualmente em termos de doenças e desordens” (Conrad, 2007:4).

Conforme aponta Keneth, Rohden e Cáceres em seu artigo Ciência, gênero e sexualidade :

“ De modo complementar, preconceitos de toda ordem podem ser legitimados por olhares enviesados da ciência, contribuindo … na construção de discursos essencializados sobre diferenças de gênero que inevitavelmente colocam as mulheres em condição ‘naturalmente’ inferior, ou que transformam aspectos do ciclo de vida das mulheres em doenças – como a desordem disfórica pré-menstrual- ou, no mínimo, como objeto incessante do esquadrinhamento das pesquisas epidemiológicas.

A medicalização da sexualidade também se expressa pela produção de drogas para ‘disfunção sexual’ (originalmente masculina, com imenso sucesso de vendas que tem levado, até o momento, a repetidas tentativas de produção de quadros diagnósticos comparáveis para as mulheres), que reduzem a expressão da sexualidade à performance, sem nenhuma consideração quanto ao desejo e à produção e compartilhamento do prazer.”

Ao contextualizar o fenômeno da medicalização e a enorme influencia dos meios de comunicação de massa, nas diversas mídias, além do forte investimento da indústria farmacêutica nas campanhas publicitárias, junto ao público leigo e aos profissionais médicos, encontramos em Azize uma interessante análise antropológica de três importantes medicamentos, de uso frequente a partir do final dos anos 90 pela classe média urbana. “Prozac, Xenical e Viagra,  se destacam na multidão de fármacos à venda nas farmácias, seja por seu sucesso comercial, seja pelo grande apelo simbólico junto ao público consumidor, ou ainda por ambos os motivos. … Apesar de terem funções muito diferentes, estas pílulas foram reunidas pelos meios de comunicação de massa sob um mesmo rótulo que me interessou muito, os “remédios do estilo de vida” ou “life-style drugs”. Estas três marcas não são as únicas, mas são as de maior visibilidade, chegando a funcionar como representantes ou sinônimos do seu tipo de medicamento.”

Ao longo das últimas décadas uma lenta, porém progressiva transformação vem operando na sociedade como um todo. Os modelos sobre os quais foram construídas as relações entre os gêneros, seus papéis até então forte e rigidamente estabelecidos, a questão do poder, em toda a sua amplitude e enraizamentos, estiveram sob constante pressão e destituição.

A absoluta falta de modelos com os quais se identificar e seguir, representou, sobretudo para os homens, detentores do patriarcado, fonte de angústias e inseguranças. Frente à situações sobre as quais não possuíam habilidades psíquicas para lidar, porque também não foram educados para isso, encontraram na ciência a via de resposta com a qual poderiam se reapropriar e se reempoderar não apenas da sua sexualidade mas do seu papel dominante na sociedade. Ao afastar as questões emocionais e relacionais como causas exclusivas ou concomitantes das suas disfunções sexuais, ele nega sua fragilidade, suas inseguranças diante de uma parceira “potente” e “exigente” sexualmente, seu profundo receio diante do seu próprio corpo envelhecido sob a ilusão do “eterno” desempenho sexual e poder viril.

Referências:

Russo,J. A Terceira Onda Sexológica: medicina sexual e farmacologização da sexualidade. Revista Latino Americana – Sexualidad, Salud y Sociedad n.14-ago.2013-pp.172-194

Cherman, S. Ejaculação precoce; sintoma ou mito? Revista Brasileira da Sexualidade Humana, vol.10,n.2,p.207-216,1999

Kenneth,C. ,Rohden,F & Cáceres,C  Ciência, gênero e sexualidade  The Sexuality policy watch report

Azize,R A química da qualidade de vida: uso de medicamentos e saúde em classes médias urbanas brasileiras Portal das ciências sociais brasileiras


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